27 de dez de 2015

Para chover de novo

Já faz algum tempo desde o dia em que eu estava chorando sentada em um chão de terra, segurando meus joelhos rente ao corpo, com toda força, em uma tentativa falha de diminuir a tremedeira. Não lembro do lugar, nem como cheguei ali, talvez seja culpa das lágrimas que atrapalhavam a visão. Talvez seja culpa do turbilhão que estava por aqui. Mas isso não importa, o lugar nunca importou. Assim como o rosto dele. Ele chegou e não levantei os olhos para ver quem era, tantos já haviam passado por ali e ninguém se deu ao trabalho de parar e perguntar se eu estava bem, talvez ele fosse mais um. Ao contrário do esperado ele se aproximou mais, não quis olhar para ele porque sempre que estou neste estado, não consigo olhar para outros olhos sem me desmanchar ainda mais em lágrimas. Prefiro chorar sozinha, não por orgulho, por parecer fraca, tudo o que preciso é me concentrar até tudo parar.
Ele ficou um tempo de pé até que se abaixou, levantou meu queixo para que olhasse para ele. Olhou-me com firmeza como se pudesse conhecer-me apenas olhando nos meus olhos, como se toda a história estivesse ali. Olhou-me com atenção, o suficiente até que eu visse em seus olhos que também poderia confiar nele. Não lembro do seu rosto, mas lembro daqueles olhos e do sorriso que transmitiam paz.
– Ei menina, você não vai ficar aqui, não é? Caída no chão? - não respondi e ele prosseguiu:
– Você já reparou onde está? Olhe para os lados. Está vendo? - eu estava perto de uma avenida movimentada, a noite já havia caído. Mais uma vez ele prosseguiu, ainda sem resposta:
– A vida está passando enquanto você está aqui, no chão. Não espera por você, não espera você ficar bem. Passa igual para todos, feridos ou não. Pode não ser justa, mas passa para todos. Está passando para você... - ele parou de falar quando começou a chover, olhou para cima e sorriu, sorriu da forma mais cativante possível, como uma criança quando recebe um presente novo, um presente que não era mais esperado. O frio aumentou e com ele a tremedeira. Suas mãos seguravam meus braços, como que para me estabilizar. Ele voltou a falar:
– Não sei o que aconteceu com você, nem preciso que me diga, só preciso que ouça com atenção o que vou dizer agora, ok? - fiz que sim com a cabeça, ele continuou:
– Bem, não acredito muito no acaso. Sempre vou por outro caminho, mas hoje quis vir por este, no noticiário informaram que não iria chover e bem... está chovendo. Acredito que está chovendo para você. Tanto aqui fora quanto aí dentro. Mas vou te dizer algo sobre a chuva, ela vem para duas coisas, para trazer vida ou para destruir. Assim como você, ela cai, cai e leva consigo tudo de ruim para debaixo da terra. Cai mas levanta, levanta para cair de novo. Lava o que tem que lavar, seja a alma ou o caminho. Faz nascer, faz morrer e faz renascer. Seja chuva menina, caia mas não vire poça no chão. Levante-se para chover de novo.
                 雨