9 de dez de 2015

Merah

Eles corriam para chegar tempo na casa da amada anciã Galileia, alguns tropeçaram por conta da descuidada pressa. Ela sempre os esperava, sentada em sua cadeira de balanço avermelhada que ficava na varanda da casa, e hoje não seria diferente. Um após outro chegaram, sem que a senhora precisasse dizer algo se acomodaram em uma meio círculo, cheios de expectativas.
Sorriu a todos quando eles se aquietaram, e então exclamou:
- Bom dia, meus pequenos curiosos! Que história vocês gostariam de ouvirem hoje?-perguntou ela, com doçura.
- Aquela do padre! – Disse um rapaz loiro.
- Uma de terror! – Exclamou uma garota morena, de olhos claros.
- Alguma nova! – Respondeu um menino de blusa clara
E logo, um burburinho começou, ate que por fim Galileia indagou:
- E então, decidiram? – E eles em uníssono responderam:
- Sim! Queremos uma de terror!
A senhora G. deu um pequeno sorriso e começou com uma voz que envolvia e lhes fazia imaginar:
- “Nossa história começa, em nossa vila a muitas e muitas luas atrás, numa época em que nem os avós de vocês viveram. Há muito, muito tempo atrás: No começo de tudo, havia um pacto com o espírito maior, para proteger nossa vila de tudo e todos, consistia em cedermos nossa sagrada floresta fonte de nossa vida, para que os companheiros do outro mundo dos deuses pudessem festejar e descansar suas almas,para honrá-lo foi decidido que seria extremamente proibido entrar na floresta quando a lua estivesse alto no céu, pois assim que isso acontecesse ela seria território de algo maior que todos nós. E se isso fosse desrespeitado perderíamos toda a proteção que nos foi dada.
Colheitas e luas depois disso, uma menina que cresceu sem saber das lendas e contos foi desafiada a entrar na floresta a noite, para provar sua coragem, provar que pertencia ali, e ela aceitou.
Adentrou pela floresta a noite, sem saber que isso seria seu fim, sem saber que quem se atrevesse a tocar o reino dos espíritos protetores na hora sagrada seria punido, e assim foi feito.
Os protetores são ferozes, vorazes, impiedosos e incansáveis, ela correu o mais rápido que pode, implorou, gritou por socorro, mas ninguém poderia salvá-la, eles não se importavam com o fato dela ser apenas uma criança, ali só importava o fato de que ela teria de ser punida. Ela se atreveu, eles teriam o que lhes pertencia.
Logo a relva estava cheia do sangue da garota, que fora esquartejada sem piedade alguma.
No dia seguinte, os mesmo que a desafiaram a ir encontro do seu destino, foram a floresta e viram o verde ser carmesim, mas não havia um só pedaço da moça, porém onde maior era a concentração avermelhada crescer uma árvore.
Acobreada como os cabelos dela.’’
Alguns estavam encolhidos de medo, outros estavam apenas abismados, com direito a olhos arregalados e boca entreaberta.
Mas todos, sem exceção estavam em silêncio.
Então, pronunciou-se uma voz suave e fina, de uma garota que perguntou:
- É por isso que meu avô dizia que a tribo teve uma época de seca, fome e doenças?
Os olhos da anciã cintilaram, mas ela apenas deu de ombros e perguntou:
- O que vocês acham?
- Eu acho que é só uma lenda – Respondeu um menino loiro, dos olhos escuros. E logo todos começaram a dar opiniões ao mesmo tempo a respeito do que achavam.
A mulher grisalha levantou a cabeça e notou que o sol se punha no céu.
- Meus amados; está na hora de irem, o sol já está se pondo.
E assim, calmamente um de cada vez se despediu da velhinha, assim que o último sumiu da vista, ela se levantou da cadeira, e lentamente foi andando para dentro de casa, onde sua neta, Milla, escutara todo o conto, sentada no sofá da sala. A neta olhou-a e perguntou séria:
- Isso realmente aconteceu? - A velhinha deu um sorriso triste e sentou-se ao lado da pequena.
- O nome dela era Merah. Foi minha tetratiavô, quase toda vila adoeceu, tiveram uma seca horrível e a colheita não foi o suficiente aquele ano, e nos próximos também não, muitos morreram. Até que alguém da nossa família descobriu de algum modo, que os espíritos voltariam a abençoar a todos, se fizemos sacrifícios a cada 50 anos, o que se tornou tradição da família. Precisaríamos encontrar alguém puro de coração e convencê-lo a ir para floresta no meio da noite. Mas claro que nossa família sabia que não aceitariam sacrificar os filhos. É preciso para manter a vida na vila, então demos um jeito, eu e os que vieram antes de mim. – Confidenciou-lhe, com um olhar perdido, como se estivesse lá quando acontece.
A menina ficou estupefata ao saber disso tudo, trêmula perguntou:
- E como você conseguiu vovó?
- O jogo Kope. – Respondeu a idosa.
- Como ele funciona? – Perguntou Milla.
- Desafia-se alguém de coração puro, ambos vão para floresta e quem contar até dez de olhos fechados, e depois dizer três vezes ‘Merah’ sem abrir os olhos nenhuma vez, vive. Quem abrir é morto e a existência é apagada da memória de todos, por isso da certo.
Ao ouvir isso, a neta calou-se, consternada. E ali, ficaram caladas, refletindo que nem sempre é fácil proteger o que se ama.
Aos poucos a pequena Milla aceitou que tinha que fazer, mesmo sem a pressão da avó em relação isso, ela não tinha muito tempo para ficar indecisa, sabia que mesmo que fosse algo extremo e indesculpável, a vila realmente precisava sobreviver e uma vida poderia salvar centenas.
Por sorte ou azar, era querida por todos na vila, e sabia exatamente quem poderia ser.
E ao pôr do sol do dia esperado, ela chegou perto do mesmo menino loiro dos olhos escuros que não acreditou na lenda e perguntou:
-  Quer jogar um jogo?