19 de nov de 2015

Outra vida

Hoje peguei um ônibus em um horário que não é o de costume, e decidi observar todo o caminho, observar o que geralmente deixo passar despercebido. Comecei a andar de ônibus depois que se foi. Não consigo ficar em lugares confinados, sozinho com tua ausência. Ver pessoas vivendo me distrai. Mantém minha sanidade. Não sentei, fiquei em pé sendo embalado por cada obstáculo do percurso. Baixei os olhos e em uma cadeira a minha frente vi uma garotinha sentada com sua mãe, ela estava de lado, de modo que podia olhar para a mãe e que pôde olhar pra mim. Devia ter 3 ou 4 anos de idade, me desculpe, não sou bom em dar idade a alguém. Mas ela lembrou-me como nossa filha seria. Ela possuía os teus cachos loiros, e uns fios negros, afinal, ela seria nossa filha, tinha que existir algo meu também, certo? Em um momento ela olhou nos meus olhos e sorriu. Os olhos dela continham o mesmo brilho que os teus sustentavam. Olhou e sorriu como se soubesse o que eu estava pensando, como se compreendesse que era nossa filha. Aquela que nasceu, mas não pude ver crescer, aquela que ainda vou conhecer quando me juntar a vocês. Lembrei dos planos que fizemos para o nosso pequeno anjo, para nossa nova família. Lembrei do dia que era pra ter sido o melhor dia de nossas vidas, mas que nos foi tirado no parto, e o dia acabou se transformando em um grande borrão. Como os dias que se seguiram, como os dias que ainda me seguem. Mas quando a garotinha dos cachos loiros olhou-me e sorriu, algo aqui dentro mudou, salvando-me, como você salvou em vida. 
Resolvi escrever para dizer que estou cumprindo com o que prometi, aos poucos, confesso, mas estou vivendo. Ainda vou encontrar vocês, não nessa, mas em outra vida. Estranho?! Eu sei, mudei de religião. Precisa existir outra vida. Preciso de vocês.