6 de ago de 2015

Demons

Acabo de sair da casa dos meus pais, saí batendo as portas que ficaram para trás junto com todas as palavras ditas, mal ditas e malditas. Estou correndo  em direção ao meu carro, as lágrimas borram meu caminho, entro no carro, fecho a porta e dou partida. Pego a direção contrária a qual estou acostumada na estrada, preciso ir pra um lugar novo, desconhecido.
Ligo o som do carro e começa a tocar a música da Imagine Dragons "Demons", não poderia ser uma melhor.
Hoje meus demônios foram libertados. Todos os anos sufocados foram cuspidos na cara daquele que deveria ser meu pai. Ele é mais um dos demônios. Não entendo como ela conseguiu suportá-lo por tanto tempo, como ainda consegue suportar. A cena de tantas outras vezes hoje se repetiu pela última vez, ela no canto da sala, paralisada, chorando desesperadamente, pedindo pra tudo aquilo parar. 
 Desculpe mãe. - pronuncio de longe, dizendo com os olhos que ela não merecia nada disso. Nunca conheci alguém tão gentil.
Meus amigos dizem que ela está com ele como uma ação de Deus, na esperança que ele volte a ser um ser humano, vendo nela toda aquela bondade. Tudo o que consigo pensar desde sempre é que justamente por ela ter um bom coração, deveria ter ao seu lado alguém melhor.
Por ela eu aguentei por muito tempo. Apanhei das palavras dele, apanhei das mãos ásperas e de tudo mais o que ele encontrasse pela frente. Apanhei sem palavras.
Mas hoje não. Hoje nem o sangue escorrendo do meus lábios cortados me impediram de falar, de gritar aos quatro ventos o monstro que ele é.
Choro e rio ao mesmo tempo, está assim aqui dentro, uma mistura de sentimentos. Meu pé está cada vez mais pesado no acelerador e meu corpo está cada vez mais leve. Nunca me senti tão livre. O vento gelado passa por mim e parece me levar cada vez mais longe. Longe desse planeta, longe dessa vida. Sinto como se pudesse voar, estou voando, uma curva inesperada, o carro vai pra fora da pista, me sinto leve, cada vez mais leve...