19 de set de 2014

Virtudes e Indecências - Parte 20

[...]
-Não consigo fazer o enredo se desenrolar. - Ela disse isso com a voz firme, mas tão baixa que mal saiu. - Não paro de tentar reestruturar a cena. Voltei cedo. Nem cheguei a sair de casa. Dai decidiu sair junto com a gente esta noite. Nada funciona.
- Deise, vamos para a cozinha. Tomaremos chá e conversaremos! Ela aceitou a mão que ele estendeu, mas não se levantou. 
- Nada funciona porque é tarde demais para mudar o enredo.
- Sinto muito, Deise. Por que não vem comigo agora?
- Ainda não a levaram, levaram? Eu devia vê-la, antes...
- Agora não. 
- Preciso esperar até a levarem. Sei que não posso ir junto com ela, mas preciso esperar até que a levem. É minha irmã.
Levantou-se então, mas foi apenas até o corredor e esperou.
- Deixe-a - aconselhou Murilo quando o parceiro se adiantou. - Ela precisa disso.
Vinícius enfiou a mão nos bolsos.
- Ninguém precisa!
Já vira outros se despedirem de alguém que amava assim. Mesmo após todas as cenas, todas as vítimas e todas as investigações, ele não conseguia não sentir nada. Mas disciplinara-se a sentir o mínimo possível. 
Deise ficou ali parada, as mãos frias e cerradas uma na outra, enquanto levavam Daiane para fora. Não chorou. Enterrou-se no fundo de si à procura de sentimentos, mas nada encontrou. Queria a dor da perda, precisava dela, mas parecia que a dor tinha ido embora, se enfiado num canto e se enroscado em si mesma, deixando-a vazia. Quando sentiu as mãos de Vinícius nos ombros, não se sobressaltou nem estremeceu, mas inspirou fundo.
- Vocês tem de me fazer perguntas agora?
- Se estiver preparada. 
- Estou. - Deise pigarreou. A voz devia ser mais forte. Ela sempre fora forte. - Vou fazer chá. - Na cozinha, pôs a chaleira no fogo e depois ocupou-se em procurar as xícaras e pires. - Dai sempre mantém tudo tão arrumado. Só preciso lembrar onde minha mãe guardava as coisas e...
Interrompeu-se. A mãe. Teria de ligar e contar aos pais. 
Lamento, mãe, lamento muito! Eu não estava aqui. Não pude impedir. 
Agora não, disse a si mesma, mexendo nos saquinhos de chá. 
- Imagino que você não quer açúcar. 
- Não. 
Vinícius mudou de posição na cadeira, aflito, e desejou que ela sentasse. Embora os movimentos fossem firmes, Deise não tinha cor no rosto. Não fazia muito tempo desde que ele a encontrara curvada sobre o corpo da irmã. 
- E você? É o detetive Murilo, não é? O parceiro do Vinícius?
- Sim. - Ele pôs a mão no encosto de uma cadeira para afastá-la da mesa. - Aceito duas colheres de açúcar!
Como Vinícius, Murilo notou a ausência de cor nela, mas também reconheceu a determinação de prosseguir com aquilo até o fim. Não era tão frágil, pensou, como uma pedaço de vidro que se racha em vez de quebrar-se. 
Ao pôr as xícaras na mesa, ela olhou a porta dos fundos. 
- Ele entrou por ali, não foi? 
- É o que parece. - Murilo pegou o saquinho e colocou-o junto ao pires. Ela repelia a dor, e como policial ele tinha que aproveitar-se. - Lamento termos de falar sobre isso. 
- Não tem importância. - Ela pegou o chá e tomou um gole. Sentiu o calor do líquido na boca, mas nenhum gosto. - Não tenho muita coisa a dizer a vocês, na verdade. Dai estava no escritório quando saí. Ia trabalhar. Eram, não sei, 18h30. Quando voltamos achei que já tinha ido dormir. Não tinha deixado a luz da varanda acesa. - Detalhes, pensou, ao conter outra luta com a histeria. A polícia precisava de detalhes, como qualquer bom romance. - Eu ia para a cozinha e notei que a porta, a porta do escritório, estava aberta e a luz, acesa. Então entrei. 
Pegou de novo o chá e fechou com todo cuidado a mente para o que aconteceu em seguida. 
- Ela vinha saindo com alguém?
- Não. - Deise relaxou um pouco. Iam falar de outras coisas, coisas lógicas, e não da cena absurda além da porta do escritório. - Ela acabou de passar por um divórcio medonho e ainda não tinha se recuperado. Trabalhava. Não socializava com ninguém. Dai tinha a mente fixa em ganhar muito dinheiro para entrar na justiça e ganhar de volta a custódia do filho. 
Kevin. Amado Deus, Kevin. Ela pegou a xícara com as duas mãos e bebeu de novo. 
- O marido dela era Jonathan Costa. Dinheiro antigo, linhagem antiga, temperamento péssimo. - Deise endureceu os olhos ao tornar a olhar a porta. 
- Tem algum motivo para achar que o marido ia querer assassinar sua irmã?
Deise ergueu os olhos para Vinícius. 
- A separação deles não foi nada amigável. Ele vinha enganando-a há anos e ela contratou um advogado e um detetive particular. Ele talvez tenha descoberto. Costa é o tipo de nome que não tolera esse tipo de coisa. 
- Sabe se ele chegou alguma vez a ameaçar sua irmã? 
Murilo provou o chá, embora pensasse desejoso no bule de café. 
- Não que ela tivesse me dito, mas Dai tinha medo dele. Não lutou por Kevin a princípio por causa do temperamento do ex-marido e do poder que a família dele possui. Ela me contou que, certa vez, ele mandou um dos jardineiros para o hospital apenas por uma briga sobre uma roseira. 
- Deise. - Vinícius pôs a mão na dela. - Você notou alguém na vizinhança que a deixou aflita? Alguém veio à porta, entregar ou pedir alguma coisa? 
- Não. Só teve o homem que entregou meu baú, mas era inofensivo. Fiquei sozinha com ele na casa por 15 ou 20 minutos. 
- Qual é o nome da empresa? - perguntou Murilo. 
- Não sei... - Ela apertou os dedos. Sempre lembrava dos detalhes com facilidade, mas pensar agora era como tentar dissipar uma névoa. - Ágil e Fácil. Não, Rápido e Fácil. O nome do rapaz era, hum, Júnior. É, Júnior. Tinha o nome bordado em cima do bolso da camisa. Falava com sotaque puxado. 
- Sua irmã era professora? - quis saber Murilo. 
- Isso mesmo.
- Algum problema com outros funcionário da escola? 
- A maioria é de freiras. É difícil brigar com freiras. 
- É. E os alunos?
- Ela não me disse nada. A verdade é que nunca dizia. - Esse pensamento fez seu estômago revirar-se de novo. - No dia em que cheguei à cidade, conversamos, tomamos vinho um pouco além da conta. Foi quando ela me falou de Jonathan. Mas desde então, e durante quase toda nossa vida, sempre se manteve fechada. Posso dizer que Daiane não fazia inimigos, nem amigos, pelo menos íntimos. Nos últimos anos, levou uma vida limitada à família. Não tinha voltado pra a cidade por tempo suficiente para criar laços[...]