27 de jun de 2014

Virtudes e Indecências - Parte 19

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Era como uma cena saída de um dos seus livros. Depois do assassinato, chegava a policia. Alguns cansados, outros cínicos. Dependia do clima da história. Às vezes dependia da personalidade da vítima. E dependia, sempre, da imaginação. 
A ação podia ocorrer num beco ou numa sala de visitas. A atmosfera era sempre a mesma em qualquer cena. No livro que escrevia agora, narrava um assassinato na biblioteca do secretário de Estado. Gostava da perspectiva de incluir um Serviço Secreto, políticos ou espionagem, além da polícia. 
Seria sobre veneno e beber do copo errado. O assassinato era sempre mais interessante quando um pouco confuso. Deise deleitara-se com o desenrolar do enredo até então, porque ainda não se decidira bem sobre quem seria o assassino. Sempre a fascinava resolver quem era e surpreender-se. O bandido sempre tropeçava no fim.
Deise estava sentada no sofá, calada e com os olhos fixos. Por algum motivo, não conseguia ir além desse pensamento. O mecanismo mental de autodefesa transformara a histeria em um choque entorpecido, de modo que até seus próprios tremores pareciam pulsar através do corpo de outra pessoa. Um bom assassinato tinha mais vigor se a vítima deixasse para trás alguém chocado ou arrasado. Era um artifício quase infalível para atrair o leitor se feito da maneira certa. Ela sempre tivera talento para retratar emoções: dor, fúria, desolação. Às vezes trabalhava durante horas e dias nelas, alimentando-se das emoções, deliciando-se ao mesmo tempo com os lados claros e obscuros da natureza humana. Depois as desligava, despreocupada, como desligava o computador, e seguia com sua própria vida.
Não passava de uma história, afinal, e a justiça venceria no último capítulo. 
Reconheceu as profissões dos homens que entravam e saíam da casa da irmã - o médico-legista, a equipe da perícia, o fotógrafo da polícia.
Certa vez usara um fotógrafo da polícia como protagonista num romance, retratando detalhes nítidos e arenosos da morte com uma espécie de deleite. Conhecia o procedimento, descrevera-o repetidas vezes, sem uma lágrima ou estremecimento. As visões e os cheiros de um assassinato não eram estranhos para sua imaginação. Mesmo agora, quase acreditava que, se fechasse com força os olhos, todos se desvaneceriam e se reagrupariam em personagens que pudesse controlar, personagens reais apenas em sua mente, personagens que criava e destruía com o aperto de uma tecla. 
Mas a irmã. Não Dai. 
Ela mudaria o enredo, disse a si mesma, quando ergueu as pernas e enroscou-as sob o corpo. Reescreveria, apagaria a cena do assassinato e reestruturaria os personagens. Mudaria toda a narrativa até tudo funcionar exatamente como queria. Fechou os olhos e, envolvendo os seios com os braços, lutou para fazer tudo se desenrolar. 
- Ela não se deixou ir facilmente - murmurou Murilo, enquanto via o médico-legista examinar o corpo do Daiane Sales. - Acho que vamos constatar que um pouco de sangue é dele. Podemos obter algumas impressões digitais no fio telefônico. 
- Há quanto tempo?
Vinícius anotava os detalhes no caderno, lutando ao mesmo tempo para deixar de pensar em Deise. Não podia permitir-se pensar nela agora. Podia perder alguma coisa, alguma coisa vital, se pensasse na forma como a irmã da vítima estava sentada no sofá, parecendo uma boneca quebrada. 
- Não mais que duas horas, provavelmente menos. - Olhou o relógio. - Neste momento, eu calcularia entre 21 e 23h. Devo conseguir ser mais preciso quando examiná-la melhor. - Fez sinal a dois homens. Enquanto ele se levantava, o corpo era transferido para um grosso saco plástico preto. 
- Obrigado. - Murilo acendeu um cigarro, examinando o contorno em giz no tapete. - Pelo aspecto do aposento, ele a surpreendeu aqui dentro. Porta dos fundos forçada. Não foi necessária muita força, por isso não me surpreende que ela não tenha ouvido. 
- É um bairro muito tranquilo - murmurou Vinícius. - A gente nem precisa trancar o carro. 
- Sei que é mais difícil quando acontece tão perto de casa. - Murilo esperou, mas não recebeu resposta. - Vamos ter de conversar com a irmã. 
- É. - Vinícius enfiou o caderno de volta no bolso. - Vocês aí, podem me dar dois minutos antes de levarem isso para fora?
Fez um aceno com a cabeça para o médico-legista. Não pudera impedir Deise de descobrir o corpo, mas podia impedi-la de participar do que acontecia agora. 
Encontrou-a onde a deixara, encolhida no sofá. Como Deise tinha os olhos fechados, ele pensou, esperou, que ela estivesse dormindo. Então a viu olhando-o com olhos imensos e totalmente secos. Reconhecia bem aquele olhar sem brilho, de choque. [...]