23 de nov de 2013

Viturdes e Indecências - Parte 18

[...]

- Então seu parceiro é casado com uma psiquiatra. 
Deise baixou a janela, acendendo um cigarro. O jantar relaxara-a. Vinícius relaxara-a, corrigiu. Era uma pessoa tão fácil de conversar e tinha uma forma bem doce e divertida de ver a vida.
- Se conheceram num caso que trabalhamos alguns meses atrás. - Ele lembrou-se de parar no cruzamento. Afinal, Deise não era Murilo. Não se parecia com ninguém mais que conhecera. - Você na certa se interessaria, pois se tratava de um assassino em série.
- Sério? - Ela nunca questionou sua fascinação pelo assassinato. - E ela foi chamada para traçar um perfil psiquiátrico.
- Isso mesmo!
- É boa de verdade?
- A melhor.
Deise assentiu com a cabeça, pensando em Daiane.
- Eu gostaria de conversar com ela. Eu poderia convidá-la para jantar. Daiane quase não socializa com ninguém.
- Está preocupada com ela.
A escritora exalou um pequeno suspiro quando contornaram a esquina.
- Sinto muito. Não queria estragar sua noite, mas acho que não fui a melhor das companhias.
- Eu não estava me queixando.
- Porque é educado demais. - Quando ele parou na garagem, ela curvou-se e deu-lhe um beijo no rosto. - Por que não entra e toma um café... não, você não toma café, é chá. Faço um chá para compensar.
Já saltara do carro antes que ele pudesse descer e abrir-lhe a porta.
- Você não precisa compensar nada.
- Eu gostaria de companhia. É provável que a Dai já tenha ido dormir a essa hora, e eu vou apenas ficar angustiada. - Remexeu na bolsa à procura das chaves. - Também podemos conversar sobre quando você vai me levar ao Distrito Policial. Droga, sei que está em algum lugar aqui. Seria mais fácil acha se Daiane tivesse deixado a luz da varanda acesa. Pronto! - Ela destrancou a porta e largou as chaves descuidadamente no bolso. - Por que não senta e liga o som enquanto eu pego o chá?
Despiu o casaco enquanto andava e jogou-o de qualquer jeito numa cadeira. Vinícius pegou-o quando escorregou para o chão e dobrou-o. Cheirava como ela, pensou. Então, dizendo a si mesmo que era tolice, estendeu-o no encosto da cadeira. Era um hábito adquirido desde comprara a casa. Passando o dedo pelo remate, tentou imaginá-lo na própria casa.
Ouviu Deise gritar o nome da irmã, como uma pergunta, e depois chamá-la repetidas vezes.
Encontrou-a ajoelhada ao lado do corpo da irmã, puxando-o, gritando. Quando a levantou, ela engalfinhou-se com ele como um tigre.
- Me solte. Maldito, me solte. É a Dai!
- Vá para o outro quarto, Deise.
- Não. É a Dai. Ai, meu Deus, me solte. Ela precisa de mim!
- Obedeça. - Com as mãos firmes nos ombros dela, ele protegeu-a com seu próprio corpo e deu-lhe duas sacudidas fortes. - Vá agora para o outro quarto. Eu cuido dela.
- Mas eu preciso...
- Quero que me escute. - Ele manteve o olhar duro nos olhos de Deise, reconhecendo o choque. Mas não podia mimá-la, acalmá-la nem envolvê-la com uma manta. - Vá para o outro quarto. Chame uma ambulância. Pode fazer isso?
- Sim - concordou e cambaleou para trás. - Sim, claro. Ambulância.
Ele viu-a sair correndo e virou para o cadáver. 
A ambulância não iria ajudar Daiane Sales, Vinícius pensou.
Agachou-se ao lado dela e agiu como um policial [...]