16 de set de 2013

COMO SURGE UM ASSASSINO

Aquele não passava de mais um dia frustrante e de céu cinza. Pensava apenas em chegar em casa e retirar os sapatos encharcados em decorrência da tempestade.
Tratava-se de um dia de distração pesada, onde em meu trabalho, por várias vezes, arrisquei calcular mal o preço pelo consumo dos clientes e derrubar as bandejas de bebida por esbarros súbitos. Como se não bastasse, na volta, quase fui atropelado novamente.
A lama deixava meus pés mais pesados, as chaves quase não giravam para abrir a porta e o que era para ser a subida para um andar acima, parecia uma escalada eterna.
Finalmente pude ver a minha cama, desarrumada desde muito tempo. Caminhei até a mesma em passos desconcertados de exaustão e sentei-me sem me importar muito por estar molhado.
Comecei tirando os meus sapatos e jogando-os próximos a janela. Voltei o olhar para os pés e me enverguei para tirar as meias.
Aos poucos, aqueles pensamentos começavam a retornar. Soavam na minha cabeça como um martelo de razões, batendo em uma estaca de palavras, contando-me sobre o quanto eu era estúpido e inútil. Um silencio de verdades que apenas os pingos no assoalho conseguiam romper.
Aos poucos, fui voltando para a consciência plena, levantando vagarosamente o olhar, como se estivesse saindo de uma embriaguez... Quer dizer, talvez eu ainda estivesse embriagado naquele instante. Não de frustrações ou angústias, mas de loucura.
Pude ver claramente um moleque na minha frente, de pé. Cabelos escorridos e castanhos, pele clara, trajado em uma farda escolar azul, um tanto familiar.
Arregalei os olhos em sinal de surpresa e perguntei:
-- Quem é você?! Como diabos entrou aqui?!
-- Tenho muitos nomes... – respondeu em baixo e suave tom.
-- Melhor sair da minha casa, moleque. Irei chamar seus pais.
-- Eu não tenho pais, sou como você...
-- O que?!
Levantei-me rapidamente e comecei a puxar o moleque pelo braço para fora do quarto.
-- Existem ainda muitas verdades que precisa aceitar sobre si mesmo – afirmou a criança.
-- Do que está falando? – perguntei, ao mesmo tempo parando de puxá-lo.
-- Amigos que não lhe dão importância, um emprego que és tratado como escravo, um amor não correspondido e uma família que nunca se teve...
Parei e apenas observei o desconhecido.
-- Olhares tortos, falta de reconhecimento, rejeição...! – disse o garoto impondo uma voz mais sombria ao último substantivo.
-- E o que você sabe sobre isso? É apenas uma criança!
-- Posso saber tanto ou até mais que você...
Apenas calei-me sem achar palavras para confrontar o que parecia ser apenas um garoto de 9 anos.
Vi ele retirar do bolso um punhal de prata com uma pérola roxeada no centro. Ele observava o objeto em suas mãos esboçando um sorriso de canto.
-- O que vai fazer com isso, guri?!
-- Você fará, não eu... – respondeu retornando o olhar para mim – É algo simples, que todo ser humano precisa fazer. É algo que posso sentir borbulhar no lado mais negro de sua alma.
A criança levantou o punhal ao seu limite e o acompanhou com a vista. Em seguida, cravou a lâmina no piso e prosseguiu:
-- Mantenha as pessoas certas por perto e tire delas o que elas retiraram de você... Lembre-se, a maior das perdas não é a morte, é o que morre dentro de nós enquanto vivemos...
Voltei a plena consciência e percebi que estava sentado, pensado. Nem sequer havia tirado a meia ainda e os meus pingos já haviam se tornado poça no chão.
Tudo normal, até que levantei o olhar e vi um punhal cravado no chão.
[...]