6 de jun de 2013

Virtudes e Indecências - Parte 17



[...]
Sentada na cadeira, Daiane estava de olhos fechados, o telefone enfiado entre o ombro e a orelha. Era um daqueles clientes que só queria falar, sem ouvir, quase o tempo todo. Cabia a ela apenas emitir ruídos de aprovação. Belo trabalho eu fui arranjar, pensou, e retirou uma lágrima dos cílios.
Não devia deixar Deise irritá-la assim. Sabia exatamente o que estava fazendo e, embora precisasse de uma pequena ajuda para impedi-la de perder a cabeça, tinha todo direito aos comprimidos.
- Não, é maravilhoso. Não, não quero que você pare. – Reprimiu um suspiro e desejou ter-se lembrado de deixar um bule de café pronto. Deise desconcentrara-a. Daiane mudou o telefone de orelha e conferiu o relógio. Ele tinha dois minutos para gozar. Às vezes parecia incrível como dois minutos podiam ser longos.
Ergueu os olhos uma vez, achando que ouvira um barulho, então voltou a atenção para o cliente. Talvez devesse deixar Deise levá-la para o Rio por um fim de semana. Talvez lhe fizesse bem sair, tomar um pouco de sol. O problema era que, com a irmã por perto, nunca parava de pensar em seus próprios defeitos e fracassos. Sempre fora assim, e ela aceitara que sempre seria. Apesar disso, não devia ter se descontrolado com Deise, disse a si mesma, massageando a têmpora. Mas agora já estava feito, e ela precisava trabalhar.
O coração de Thiago batia como um tarol. Ele ouvia-a murmurar, sussurrar. Aquele riso baixo inundou-o. As palmas das mãos pareciam gelo. Imaginava como seria aquecê-las nela.
Ticiane ficaria feliz ao vê-lo. Deslizou a costa das mãos sobre a boca ao aproximar-se. Queria surpreendê-la. Tinham sido necessárias duas horas e três carreiras de cocaína, mas ele acabara por reunir coragem para ir procurá-la.
Sonhara com ela na noite anterior. Ela pedia-lhe que viesse, suplicava. Ticiane. Queria ser sua primeira mulher.
O corredor estava escuro, mas ele via a luz sob a porta do escritório. E ouvia a voz atravessá-la. Acenando-lhe. Provocando-o.
Precisou parar um instante, apoiando a palma da mão na parede para descansar. Só para recuperar o fôlego. O sexo com ela seria mais desvairado que qualquer barato bombeado ou inalado pelo corpo. O sexo com Ticiane seria o auge, o pináculo supremo. E, quando os dois terminassem, ela lhe diria que ele era o melhor.
Ticiane parara de falar. Thiago ouviu-a deslocar-se. Aprontar-se para ele. Devagar, quase desfalecendo de excitação, abriu a porta.
E lá estava ela.
Balançou a cabeça. Ela era diferente, diferente da mulher de suas fantasias. Morena, não loira, e não usava preto transparente nem renda branca, mas saia e blusa simples. Confuso, ficou ali mesmo parado no vão da porta, olhando.
Quando a sombra caiu sobre a escrivaninha, Daiane ergueu os olhos achando que pudesse ser Deise. A primeira reação não foi de medo. O garoto que a fitava podia ser um de seus alunos. Ela levantou-se para repreendê-lo.
- Como entrou aqui? Quem é você?
Não era o rosto, mas aquela voz. Tudo o mais desapareceu, menos a voz. Thiago aproximou-se, sorrindo.
- Não precisa fingir, Ticiane. Eu disse que viria.
Quando ele avançou para a luz, ela sentiu o gosto do medo. Não era necessário ter experiência com a loucura para conhecê-la.
- Não sei do que você está falando. – Ele a chamara de Ticiane, mas não era possível. Ninguém sabia. Ninguém podia saber. Tateou a mesa, à procura de uma arma, enquanto calculava a distância. – Terá de ir embora ou chamarei a policia.
Mas ele continuou sorrindo.
- Tenho ouvido você durante semanas e semanas. Então, ontem à noite, você me mandou vir. Estou aqui agora. Para você.
- Você é louco. Eu nunca falei com você. – Tinha de ficar calma, muito calma. – Cometeu um erro, agora eu quero que saia.
Aquela voz. Ele teria reconhecido entre milhares.
- Toda noite eu escutava você. – Estava excitado, desconfortavelmente excitado, e tinha a boca seca como pedra. Enganara-se era loira, sim, loira e linda. Devia ter sido efeito da luz antes, ou a própria magia dela. – Ticiane – murmurou. – Eu amo você.
Com os olhos nos dela, começou a desafivelar o cinto. Daiane agarrou um peso de papel, arremessou-o e precipitou-se para a porta. Atingiu-o de raspão na cabeça.
- Você prometeu! – Ele a tinha agora, os braços rijos, magros, mas resistentes, apertados à sua volta. A respiração saiu em arquejos quando colou o rosto no dela. – Quero mais que conversa agora, Ticiane.
Era um pesadelo, ela pensou. Ticiane era um faz de conta, e também aquilo. Um sonho, só isso. Mas os sonhos não machucam. Daiane sentiu a blusa ser rasgada enquanto lutava. O louco tinha as mãos por todo seu corpo, por mais que ela lutasse e chutasse. Quando afundou os dentes no ombro dele, o garoto ganiu, mas a arrastou para o chão e rasgou-lhe a saia.
- Você prometeu! Você prometeu! – Repetia sem parar.
Sentia a pele dela agora, macia e quente, igual ao que imaginara. Nada o deteria.
Quando ela o sentiu penetrá-la começou a gritar.
A paixão explodia na cabeça de Thiago, mas não como ele queria. Os gritos dela estragavam tudo.
Lançando a mão com ímpeto, ela empurrou-o e bateu na mesa. O telefone caiu no chão ao lado de sua cabeça.
Ele pegou o fio, enrolou-o no pescoço de Daiane e puxou-o até os gritos cessarem. [...]