4 de jun de 2013

Virtudes e Indecências - Parte 16



[...]
Daiane fechara-se no escritório, com a porta trancada. Prometendo que iria permanecer calma, Deise bateu.
- Dai, sinto muito.
A irmã terminou de conferir um dos trabalhos escolares e ergueu os olhos.
- Não tem do que se desculpar.
- Tudo bem. – Então se acalmara de novo, pensou Deise. Não sabia ao certo se era por causa das pílulas ou se o ataque de raiva esfriara. – Escute, pensei em ir até a casa ao lado e dizer a Vinícius que a gente pode sair outra noite. Assim nós duas podíamos conversar.
- Não temos mais nada para conversar. – Daiane pôs o trabalho já corrigido em uma pilha e pegou mais um de outra pilha. Sentia-se inteiramente calma agora. As pílulas lhe haviam proporcionado isso. – E vou ficar de plantão esta noite. Vá se divertir.
- Dai, estou preocupada com você. Eu amo você!
- Eu também amo você. – Era sincera, desejava apenas poder mostrar o quanto. – E não tem nada com que se preocupar. Sei o que estou fazendo.
- Sei que você está sob muita pressão, terrível pressão. Quero ajudar.
- Eu agradeço. – Daiane marcou uma resposta errada e perguntou-se por que os alunos não prestavam mais atenção. Ninguém parecia prestar atenção o suficiente. – Eu dou conta. Já disse que é um prazer ter você aqui, e é mesmo. Também me alegra que fique o tempo que quiser... desde que não interfira.
- Querida, a dependência dia Valium é muito perigosa. Não quero ver você machucada.
- Não sou dependente. – Ela deu ao trabalho uma nota baixa. – Assim que tiver Kevin de volta e minha vida estiver em ordem, não vou precisar de pílulas. – Sorriu e pegou outro trabalho. – Pare de se preocupar, Deise. Sou uma menina crescida agora. – Quando o telefone tocou, ela levantou-se da escrivaninha e transferiu-se para a poltrona. – Sim? – pegou um lápis. – Sim, aceito. Anotou e baixou o botão de desconectar. – Boa noite, Deise. Deixarei a luz da varanda acesa para você.
Como a irmã já discava o número, Deise recuou do escritório. Pegou o casaco no armário do corredor onde Daiane o pendurara e saiu apressada.
A fisgada do ar de inicio de abril a fez pensar mais uma vez no Rio de Janeiro. Talvez ainda conseguisse convencer Daiane a viajar. Talvez no nordeste. Qualquer lugar quente e sossegado. E assim que ela saísse da cidade, se afastasse do pior da pressão, poderiam realmente conversar. Se isso não desse certo, Deise guardara na memória os nomes dos três médicos que receitaram os frascos de pílulas. Iria procurá-los.
  Ainda lutando para vestir o casaco, bateu à porta de Vinícius.
- Sei que cheguei adiantada – disse assim que ele a abriu. – Espero que não se importe. Achei que podíamos tomar um drinque primeiro. Posso entrar?
- Claro. – Ele recuou, entendendo que ela só queria uma resposta à última pergunta. – Você está bem?
- É visível? – Com uma risada entrecortada, Deise retirou os cabelos caídos no rosto. – Tive uma briga com minha irmã, só isso. A gente nunca conseguiu passar mais de uma semana sem brigar. Em geral, a culpa é minha.
- Em geral, quando um não quer, dois não brigam.
- Não quando a briga é comigo. – Seria fácil abrir-se e extravasar. Mas se tratava de um assunto de família. Deliberadamente, ela virou-se para olhar a casa. – É maravilhosa!
Olhou, além do papel de parede descascado e das pilhas de madeira empilhada, as dimensões e o espaço da sala. Via mais a altura do pé-direito do que o reboco descascado e a beleza da madeira maciça antiga sob as manchas e arranhões.
- Ainda não comecei a trabalhar nesta sala. – Mas, em sua mente, ele já a via concluída. – A cozinha foi minha prioridade.
- É sempre a minha. – Ela sorriu e estendeu a mão. – E então, vai me mostrar?
- Claro, se quiser.
Era estranho, mas em geral Vinícius sentia como se engolisse a mão de uma mulher. A dela era pequena e fina, mas segurava a sua com firmeza. Ela olhou a escada ao passarem.
- Assim que você arrancar essa madeira, vai encontrar algo bastante especial. Adoro essas casas antigas, com todos esses aposentos empilhados um em cima do outro. É engraçado, porque meu apartamento em Nova York não passa de um aposento enorme, e eu me sinto muito confortável lá, mas... oh, é maravilhosa!
Ele arrancara tudo, lixara, limpara com vapor d’água e reconstruíra. A cozinha era resultado de quase dois meses de trabalho. Pelo que Deise podia imaginar, fosse qual fosse a quantidade de tempo que o vizinho investira, valia cada momento. Os balcões eram de um tom rosa - escuro, cor que ela jamais esperaria que um homem apreciasse. Pintara os armários de um tom verde mentolado como contraste. Os eletrodomésticos eram branquinhos e saídos direto da década de 1940. A lareira e o fogão de tijolos também haviam passado por uma bela restauração. O piso devia ser de linóleo velho, mas fora raspado e agora era de carvalho.
- O ano era de 1945, fim da guerra, e morar no Brasil não podia ser melhor. Adoro. Onde encontrou esse fogão?
Era estranho como ela parecia bem ali, pensou Vinícius, com aqueles cabelos frisados esvoaçantes.
- Eu, ah, tem uma loja de antiguidades no Pará. Foi um inferno encontrar as partes que faltavam.
- É um deslumbre. Realmente um deslumbre. – Ela podia relaxar ali, pensou, ao encostar-se na pia. De porcelana branca, fazia-a lembrar-se de casa e de tempos mais simples. Na janela, viam-se pequenos potes em forma de pêra com brotos verdes nascendo. – O que está cultivando aqui?
- Algumas ervas.
- Ervas? Tipo alecrim e coisas do tipo?
- Coisas do tipo. Quando eu tiver uma chance, vou abrir um lugar no jardim.
Olhando pela janela, Deise viu onde ele trabalhara na véspera. Era atraente imaginar um pequeno canteiro de ervas brotando, embora não soubesse distinguir tomilho de orégano. Ervas na janela, velas na mesa. Seria uma casa feliz, não formal e tensa como a do lado. Afastou o mau humor com um sorriso.
 - Você é um cara ambicioso, Vinícius.
- Por quê?
Ela sorriu e virou-se para ele. Ofereceu-lhe mais uma vez a mão.
- Venha, vou lhe pagar uma bebida. [...]