25 de jun de 2013

No momento

No momento...
não há sentimentos
não há razão nem emoção
acabou a melancolia
acabou o dia...


No momento...
está escuro o que era reluzente
o olhar fixa apenas o horizonte


No momento...
Não há espera
não há partida
não há memórias
não há vida

23 de jun de 2013

Olhos Vermelhos

Bate com mais força,
Querendo me rasgar o peito,
Bate com mais força, 
Sou fúria por inteiro.

Rubros ficam meus olhos,
Meu corpo começa a tremer,
Ah o estrago que quero fazer.

Por favor não me provoque,
Por favor me provoque.
Não me faça soltar o que tenho aqui dentro
Me faça soltar o que tenho aqui dentro

Sou fúria, sou poder,
Sou ira, vá se esconder.

11 de jun de 2013

MEDO

Medo é um guri num buraco escuro quando puxa.
Guarda o assombro, caveiras e uma risada de bruxa.
Diz que vive vagando no vulgo roxo de mortalha,
a cabeça decepada na mágoa duma navalha.



MEDO

Não raras vezes sinto medo...
Medo de sentir e querer gritar.
Medo de olhar mais além.
Medo de cair e não poder me levantar.
Medo das marés que o mar da vida tem.

Não raras vezes sinto medo...
Não de morrer, mas de viver.
Medo de trocar o Ter pelo Ser.
Medo de esquecer 
que tenho asas nos pés
e que no entanto...
Sou frágil como outonais folhas.
Sinto medo de esquecer 
que tudo depende das minhas escolhas...

O medo intimida. Paralisa.
Mata inocentes. Desenterra o passado.
Revira mundos e fundos. Dá vida a defuntos.
Faz o olho esbugalhado.
Faz correr adrenalina no coração aterrorizado.
Faz trocar a mentira pela verdade
e a verdade pela mentira.
Substitui o certo pelo errado.
Tira a liberdade.
Afugenta a amizade.
Aniquila o amor.
Provoca dor.
Dor.
Dor.
Dor.
E mais
d
o
   r...

6 de jun de 2013

Virtudes e Indecências - Parte 17



[...]
Sentada na cadeira, Daiane estava de olhos fechados, o telefone enfiado entre o ombro e a orelha. Era um daqueles clientes que só queria falar, sem ouvir, quase o tempo todo. Cabia a ela apenas emitir ruídos de aprovação. Belo trabalho eu fui arranjar, pensou, e retirou uma lágrima dos cílios.
Não devia deixar Deise irritá-la assim. Sabia exatamente o que estava fazendo e, embora precisasse de uma pequena ajuda para impedi-la de perder a cabeça, tinha todo direito aos comprimidos.
- Não, é maravilhoso. Não, não quero que você pare. – Reprimiu um suspiro e desejou ter-se lembrado de deixar um bule de café pronto. Deise desconcentrara-a. Daiane mudou o telefone de orelha e conferiu o relógio. Ele tinha dois minutos para gozar. Às vezes parecia incrível como dois minutos podiam ser longos.
Ergueu os olhos uma vez, achando que ouvira um barulho, então voltou a atenção para o cliente. Talvez devesse deixar Deise levá-la para o Rio por um fim de semana. Talvez lhe fizesse bem sair, tomar um pouco de sol. O problema era que, com a irmã por perto, nunca parava de pensar em seus próprios defeitos e fracassos. Sempre fora assim, e ela aceitara que sempre seria. Apesar disso, não devia ter se descontrolado com Deise, disse a si mesma, massageando a têmpora. Mas agora já estava feito, e ela precisava trabalhar.
O coração de Thiago batia como um tarol. Ele ouvia-a murmurar, sussurrar. Aquele riso baixo inundou-o. As palmas das mãos pareciam gelo. Imaginava como seria aquecê-las nela.
Ticiane ficaria feliz ao vê-lo. Deslizou a costa das mãos sobre a boca ao aproximar-se. Queria surpreendê-la. Tinham sido necessárias duas horas e três carreiras de cocaína, mas ele acabara por reunir coragem para ir procurá-la.
Sonhara com ela na noite anterior. Ela pedia-lhe que viesse, suplicava. Ticiane. Queria ser sua primeira mulher.
O corredor estava escuro, mas ele via a luz sob a porta do escritório. E ouvia a voz atravessá-la. Acenando-lhe. Provocando-o.
Precisou parar um instante, apoiando a palma da mão na parede para descansar. Só para recuperar o fôlego. O sexo com ela seria mais desvairado que qualquer barato bombeado ou inalado pelo corpo. O sexo com Ticiane seria o auge, o pináculo supremo. E, quando os dois terminassem, ela lhe diria que ele era o melhor.
Ticiane parara de falar. Thiago ouviu-a deslocar-se. Aprontar-se para ele. Devagar, quase desfalecendo de excitação, abriu a porta.
E lá estava ela.
Balançou a cabeça. Ela era diferente, diferente da mulher de suas fantasias. Morena, não loira, e não usava preto transparente nem renda branca, mas saia e blusa simples. Confuso, ficou ali mesmo parado no vão da porta, olhando.
Quando a sombra caiu sobre a escrivaninha, Daiane ergueu os olhos achando que pudesse ser Deise. A primeira reação não foi de medo. O garoto que a fitava podia ser um de seus alunos. Ela levantou-se para repreendê-lo.
- Como entrou aqui? Quem é você?
Não era o rosto, mas aquela voz. Tudo o mais desapareceu, menos a voz. Thiago aproximou-se, sorrindo.
- Não precisa fingir, Ticiane. Eu disse que viria.
Quando ele avançou para a luz, ela sentiu o gosto do medo. Não era necessário ter experiência com a loucura para conhecê-la.
- Não sei do que você está falando. – Ele a chamara de Ticiane, mas não era possível. Ninguém sabia. Ninguém podia saber. Tateou a mesa, à procura de uma arma, enquanto calculava a distância. – Terá de ir embora ou chamarei a policia.
Mas ele continuou sorrindo.
- Tenho ouvido você durante semanas e semanas. Então, ontem à noite, você me mandou vir. Estou aqui agora. Para você.
- Você é louco. Eu nunca falei com você. – Tinha de ficar calma, muito calma. – Cometeu um erro, agora eu quero que saia.
Aquela voz. Ele teria reconhecido entre milhares.
- Toda noite eu escutava você. – Estava excitado, desconfortavelmente excitado, e tinha a boca seca como pedra. Enganara-se era loira, sim, loira e linda. Devia ter sido efeito da luz antes, ou a própria magia dela. – Ticiane – murmurou. – Eu amo você.
Com os olhos nos dela, começou a desafivelar o cinto. Daiane agarrou um peso de papel, arremessou-o e precipitou-se para a porta. Atingiu-o de raspão na cabeça.
- Você prometeu! – Ele a tinha agora, os braços rijos, magros, mas resistentes, apertados à sua volta. A respiração saiu em arquejos quando colou o rosto no dela. – Quero mais que conversa agora, Ticiane.
Era um pesadelo, ela pensou. Ticiane era um faz de conta, e também aquilo. Um sonho, só isso. Mas os sonhos não machucam. Daiane sentiu a blusa ser rasgada enquanto lutava. O louco tinha as mãos por todo seu corpo, por mais que ela lutasse e chutasse. Quando afundou os dentes no ombro dele, o garoto ganiu, mas a arrastou para o chão e rasgou-lhe a saia.
- Você prometeu! Você prometeu! – Repetia sem parar.
Sentia a pele dela agora, macia e quente, igual ao que imaginara. Nada o deteria.
Quando ela o sentiu penetrá-la começou a gritar.
A paixão explodia na cabeça de Thiago, mas não como ele queria. Os gritos dela estragavam tudo.
Lançando a mão com ímpeto, ela empurrou-o e bateu na mesa. O telefone caiu no chão ao lado de sua cabeça.
Ele pegou o fio, enrolou-o no pescoço de Daiane e puxou-o até os gritos cessarem. [...]

4 de jun de 2013

Virtudes e Indecências - Parte 16



[...]
Daiane fechara-se no escritório, com a porta trancada. Prometendo que iria permanecer calma, Deise bateu.
- Dai, sinto muito.
A irmã terminou de conferir um dos trabalhos escolares e ergueu os olhos.
- Não tem do que se desculpar.
- Tudo bem. – Então se acalmara de novo, pensou Deise. Não sabia ao certo se era por causa das pílulas ou se o ataque de raiva esfriara. – Escute, pensei em ir até a casa ao lado e dizer a Vinícius que a gente pode sair outra noite. Assim nós duas podíamos conversar.
- Não temos mais nada para conversar. – Daiane pôs o trabalho já corrigido em uma pilha e pegou mais um de outra pilha. Sentia-se inteiramente calma agora. As pílulas lhe haviam proporcionado isso. – E vou ficar de plantão esta noite. Vá se divertir.
- Dai, estou preocupada com você. Eu amo você!
- Eu também amo você. – Era sincera, desejava apenas poder mostrar o quanto. – E não tem nada com que se preocupar. Sei o que estou fazendo.
- Sei que você está sob muita pressão, terrível pressão. Quero ajudar.
- Eu agradeço. – Daiane marcou uma resposta errada e perguntou-se por que os alunos não prestavam mais atenção. Ninguém parecia prestar atenção o suficiente. – Eu dou conta. Já disse que é um prazer ter você aqui, e é mesmo. Também me alegra que fique o tempo que quiser... desde que não interfira.
- Querida, a dependência dia Valium é muito perigosa. Não quero ver você machucada.
- Não sou dependente. – Ela deu ao trabalho uma nota baixa. – Assim que tiver Kevin de volta e minha vida estiver em ordem, não vou precisar de pílulas. – Sorriu e pegou outro trabalho. – Pare de se preocupar, Deise. Sou uma menina crescida agora. – Quando o telefone tocou, ela levantou-se da escrivaninha e transferiu-se para a poltrona. – Sim? – pegou um lápis. – Sim, aceito. Anotou e baixou o botão de desconectar. – Boa noite, Deise. Deixarei a luz da varanda acesa para você.
Como a irmã já discava o número, Deise recuou do escritório. Pegou o casaco no armário do corredor onde Daiane o pendurara e saiu apressada.
A fisgada do ar de inicio de abril a fez pensar mais uma vez no Rio de Janeiro. Talvez ainda conseguisse convencer Daiane a viajar. Talvez no nordeste. Qualquer lugar quente e sossegado. E assim que ela saísse da cidade, se afastasse do pior da pressão, poderiam realmente conversar. Se isso não desse certo, Deise guardara na memória os nomes dos três médicos que receitaram os frascos de pílulas. Iria procurá-los.
  Ainda lutando para vestir o casaco, bateu à porta de Vinícius.
- Sei que cheguei adiantada – disse assim que ele a abriu. – Espero que não se importe. Achei que podíamos tomar um drinque primeiro. Posso entrar?
- Claro. – Ele recuou, entendendo que ela só queria uma resposta à última pergunta. – Você está bem?
- É visível? – Com uma risada entrecortada, Deise retirou os cabelos caídos no rosto. – Tive uma briga com minha irmã, só isso. A gente nunca conseguiu passar mais de uma semana sem brigar. Em geral, a culpa é minha.
- Em geral, quando um não quer, dois não brigam.
- Não quando a briga é comigo. – Seria fácil abrir-se e extravasar. Mas se tratava de um assunto de família. Deliberadamente, ela virou-se para olhar a casa. – É maravilhosa!
Olhou, além do papel de parede descascado e das pilhas de madeira empilhada, as dimensões e o espaço da sala. Via mais a altura do pé-direito do que o reboco descascado e a beleza da madeira maciça antiga sob as manchas e arranhões.
- Ainda não comecei a trabalhar nesta sala. – Mas, em sua mente, ele já a via concluída. – A cozinha foi minha prioridade.
- É sempre a minha. – Ela sorriu e estendeu a mão. – E então, vai me mostrar?
- Claro, se quiser.
Era estranho, mas em geral Vinícius sentia como se engolisse a mão de uma mulher. A dela era pequena e fina, mas segurava a sua com firmeza. Ela olhou a escada ao passarem.
- Assim que você arrancar essa madeira, vai encontrar algo bastante especial. Adoro essas casas antigas, com todos esses aposentos empilhados um em cima do outro. É engraçado, porque meu apartamento em Nova York não passa de um aposento enorme, e eu me sinto muito confortável lá, mas... oh, é maravilhosa!
Ele arrancara tudo, lixara, limpara com vapor d’água e reconstruíra. A cozinha era resultado de quase dois meses de trabalho. Pelo que Deise podia imaginar, fosse qual fosse a quantidade de tempo que o vizinho investira, valia cada momento. Os balcões eram de um tom rosa - escuro, cor que ela jamais esperaria que um homem apreciasse. Pintara os armários de um tom verde mentolado como contraste. Os eletrodomésticos eram branquinhos e saídos direto da década de 1940. A lareira e o fogão de tijolos também haviam passado por uma bela restauração. O piso devia ser de linóleo velho, mas fora raspado e agora era de carvalho.
- O ano era de 1945, fim da guerra, e morar no Brasil não podia ser melhor. Adoro. Onde encontrou esse fogão?
Era estranho como ela parecia bem ali, pensou Vinícius, com aqueles cabelos frisados esvoaçantes.
- Eu, ah, tem uma loja de antiguidades no Pará. Foi um inferno encontrar as partes que faltavam.
- É um deslumbre. Realmente um deslumbre. – Ela podia relaxar ali, pensou, ao encostar-se na pia. De porcelana branca, fazia-a lembrar-se de casa e de tempos mais simples. Na janela, viam-se pequenos potes em forma de pêra com brotos verdes nascendo. – O que está cultivando aqui?
- Algumas ervas.
- Ervas? Tipo alecrim e coisas do tipo?
- Coisas do tipo. Quando eu tiver uma chance, vou abrir um lugar no jardim.
Olhando pela janela, Deise viu onde ele trabalhara na véspera. Era atraente imaginar um pequeno canteiro de ervas brotando, embora não soubesse distinguir tomilho de orégano. Ervas na janela, velas na mesa. Seria uma casa feliz, não formal e tensa como a do lado. Afastou o mau humor com um sorriso.
 - Você é um cara ambicioso, Vinícius.
- Por quê?
Ela sorriu e virou-se para ele. Ofereceu-lhe mais uma vez a mão.
- Venha, vou lhe pagar uma bebida. [...]