17 de mai de 2013

Virtudes e Indecências - Parte 8



[...]

Deise ouviu um zumbido baixo vindo de dentro da cabeça, monótono, e culpou o vinho. Não grunhiu nem resmungou pela ressaca.

Haviam-lhe ensinado que todo pecado, perdoável ou mortal, exigia penitência. Esse era um dos poucos aspectos da formação católica que levara consigo para a vida adulta.

O sol estava forte o bastante para filtrar-se pelas cortinas transparentes nas janelas. Para defender-se, ela enterrou o rosto no travesseiro. Conseguiu bloquear a entrada de luz, mas não o zumbido. Precisava levantar, porém detestava a idéia.

Pensando em aspirina e café, saiu da cama. Foi então que percebeu que o zumbido não vinha de sua cabeça, mas de fora da casa. Remexeu em uma das sacolas e retirou o roupão atoalhado todo amassado. Ainda grogue, cambaleou até a janela e afastou a cortina.

Fazia um lindo dia, frio e com um leve aroma de primavera e terra revolvida. Uma arqueada cerca de tela entrelaçada separava o jardim da irmã do da casa ao lado.

Viu-o então, no quintal da casa ao lado. Tábuas compridas e estreitas tinham sido presas a cavaletes de marceneiro. Com aquela fácil competência que ela admirava, ele media, marcava e serrava. Intrigada, a escritora empurrou a janela e abriu-a para poder olhar melhor. O ar matinal estava frio, mas ela se debruçou ao seu encontro, satisfeita porque lhe clareou a mente. O homem era uma visão e tanto.

Paul Bunyan, o lendário madeireiro norte-americano, pensou Deise, e riu. O homem sem dúvida tinha 1,95 metros de altura, com a compleição física de um zagueiro. Mesmo a distância, ela via a força dos músculos movendo-se sob a jaqueta, além dos cabelos pretos e a barba por fazer. Também reparou na boca que se mexia no ritmo do rock antigo saído de um rádio portátil.

Quando o zumbido parou, ela deu um sorriso da janela, os cotovelos apoiados no parapeito.

- Oi – chamou. Alargou o sorriso quando o homem se virou e ergueu os olhos. Notou que ele retesou o corpo, não tanto de surpresa, concluiu, mas de presteza. – Gosto da sua casa.

Vinícius relaxou ao ver a mulher na janela. Trabalhara mais de sessenta horas naquela semana e matara um homem. A visão de uma mulher sorrindo-lhe da janela do segundo andar contribuiu muito para acalmar seus nervos em frangalhos.

- Obrigado.

- Consertando?

- Pedaço por pedaço. – Ele protegeu os olhos contra o sol e examinou-a. Não era sua vizinha. Embora não tivesse trocado mais de uma dezena de palavras com Daiane Sales, conhecia-a de vista. Mas identificou alguma coisa familiar no rosto sorridente e nos cabelos desgrenhados. – De visita?

- Sim. Dai é minha irmã. Acho que já saiu. Ela dá aulas.

- Ah. – Vinícius soube mais sobre a vizinha naqueles dois segundos que em dois meses. O apelido era Dai, tinha uma irmã e era professora. Vinícius ergueu outra tábua e colocou-a no cavalete. – Vai ficar muito tempo?

- Não sei. – Ela curvou-se um pouco mais à frente para a brisa despentear-lhe os cabelos, um pequeno prazer que o ritmo e a conveniência de Nova York negavam-lhe. – Foi você que plantou azaléias lá na frente?

- Foi. Semana passada.

- São maravilhosas. Acho que vou plantar umas para Dai. – tornou a sorrir. – Até mais!

Pôs a cabeça para dentro e desapareceu. Vinícius fitou a janela vazia.

Ela deixara-a aberta, notou, e a temperatura ainda não subira. Pegou o lápis de carpinteiro para marcar a madeira. Conhecia aquele rosto. Era ao mesmo tempo uma questão de sua profissão e personalidade nunca esquecer um rosto. Voltava-lhe sempre. [...]