19 de mai de 2013

Virtudes e Indecências - Parte 9



[...]
Dentro de casa, Deise vestiu um conjunto de moletom. Continuava com os cabelos molhados da ducha, mas não estava a fim de se preocupar com secador e escovas modeladoras. Havia café a tomar, jornal a ler e um crime a desvendar. Pelos seus cálculos, poderia pôr mãos à obra no Macbook e trabalhar o suficiente para satisfazer-se antes de Daiane retornar da escola.
No primeiro andar, pôs o bule de café para aquecer e depois conferiu o conteúdo da geladeira. A melhor aposta era o resto de espaguete da noite anterior. Deise afastou os ovos e pegou a embalagem de plástico. Levou um minuto para perceber que a cozinha não era moderna o suficiente para ter um forno micro-ondas. Aceitando o fato sem muita preocupação, jogou a tampa na pia e começou a comer com energia, frio mesmo. Ao mastigar, notou o bilhete na mesa da cozinha. Daiane sempre deixava bilhetes.
Sirva-se do que quiser na cozinha. Deise sorriu e abocanhou mais espaguete frio. Não se preocupe com o jantar, comprarei dois filés. E isso, pensou, era o jeito educado de dizer-lhe que não bagunçasse a cozinha. Reunião de pais esta tarde. Chego às cinco e meia. Não use o telefone do escritório.
Deise franziu o nariz e enfiou o bilhete no bolso. Exigiria tempo, e um pouco de pressão, mas decidira informa-se mais sobre as aventuras do trabalho extra da irmã. E havia a questão de descobrir o nome do advogado que contratara. Objeções e orgulho de Daiane à parte, queria conversar com ele em pessoa. Se o fizesse com todo cuidado, o ego dela não seria ferido. De qualquer modo, às vezes era necessário fazer vista grossa a algumas feridas e chutar para o gol. Até ter Kevin de volta, a irmã jamais iria conseguir pôr a vida em ordem. Aquele desprezível Jonathan não tinha o direito de usar o menino como arma contra Daiane.
Sempre fora um especulador, pensou. Jonathan Costa era um manipulador frio e calculista que usava a posição da família e do político endinheirado para se dar bem. Mas dessa vez, não. Talvez fossem necessárias algumas manobras, porém Deise encontraria um meio de corrigir e pôr tudo nos eixos.
Desligou o fogo sobre o bule de café no momento em que alguém bateu à porta da frente.
O baú, concluiu, pegou o recipiente de espaguete e saiu pelo corredor. Dez reais a mais deveriam convencer o rapaz da entrega a levá-lo até o andar de cima. Tinha um sorriso persuasivo ao abrir a porta.
- D. S. Sales, certo?
Parado em pé na varanda, Vinícius esperava-a com um exemplar de capa dura de Assassinato com classe. Quase serrara um dedo ao ligar o nome ao rosto na janela.
- Isso mesmo. – Ela olhou de relance a foto da contracapa.
Os cabelos haviam sido escovados e ondulados, e o fotógrafo empregara alto contraste preto e branco para fazê-la parecer misteriosa.
- Você tem um bom olho. Eu mal me reconheço nessa foto.
Agora que chegara ali, Vinícius não tinha a menor idéia do que fazer. Esse tipo de coisa sempre acontecia quando agia por impulso. Sobre tudo com uma mulher.
- Gosto de seus livros. Acho que já li a maioria.
- Só a maioria? – Deise enfiou o garfo de volta no espaguete e sorriu. – Você não sabe que os escritores têm egos imensos e frágeis? Devia dizer que já leu cada palavra do que escrevi e adorou todas.
Ele relaxou um pouco, porque o sorriso dela o exigia.
- Que tal “você sabe mesmo contar uma história”?
- Serve.
- Quando percebi que era você, acho que simplesmente quis vir aqui e confirmar que eu estava certo.
- Bem, ganhou o prêmio! Entre.
- Obrigado. – Ele mudou o livro de uma mão para a outra. – Mas não quero incomodá-la.
Deise lançou-lhe um olhar demorado e solene. Ele era ainda mais impressionante de perto do que parecera pela janela. E os olhos castanhos, de um castanho interessante.
- Então não quer meu autógrafo?
- Bem, sim, mas...
- Entre, então. – Ela tomou-lhe o braço e puxou-o para dentro. – O café está quente.
- Não tomo café.
- Não toma café? Como sobrevive? – Depois ela sorriu e indicou o caminho com o garfo. – Venha aqui nos fundos; de qualquer modo, é provável que tenha alguma coisa que você tome. Então gosta de histórias policiais?
Ele admirou o jeito dela de andar, devagar, despreocupado, como se pudesse mudar de idéia a qualquer momento sobre a direção a tomar.
- Acho que se pode dizer que histórias policiais são a minha vida.
- A minha também. – Na cozinha, Deise abriu mais uma vez a geladeira. – Não tem cerveja – murmurou e decidiu remediar isso na primeira oportunidade. – Nem refrigerante. Santo Deus, Dai. Tem suco. Parece de laranja.
- Ótimo.
- Tenho um pouco de espaguete. Quer dividir?
- Não, obrigado. É seu café da manhã?
- É. – Serviu o suco dele e indicou, sem cerimônia, uma cadeira enquanto ia ao fogão servir-se de mais café. – Mora na casa ao lado há muito tempo?
Ele sentiu-se tentado a falar de nutrição, mas conseguiu controlar-se.
- Há dois meses apenas.
- Deve ser fantástico restaurar a casa como quiser. – Deise comeu outra garfada de massa. – É isso o que você é, carpinteiro? Tem mãos que combinam com a profissão.
Vinícius sentiu um agradável alivio por ela não lhe ter perguntado se jogava bola.
- Não, sou policial.
- Tá de gozação. Sério? – Deise largou a embalagem de lado e curvou-se para frente. Eram aqueles olhos que a tornavam tão linda, ele percebeu de repente. Tão cheios de vida e de fascinação. – Sou louca por policiais. Algumas das minhas melhores personagens são policiais, mesmo as más.
- Eu sei. – Vinícius teve de sorrir. – Você tem intuição para o trabalho policial. Revela na forma como tece a trama de um livro. Tudo funciona na base da lógica e da dedução.
- Toda a minha lógica vai para a literatura. Que tipo de policial você é? Uniformizado, secreto?
- Homicídio.
- Coisa do destino. – Deise riu e apertou-lhe a mão. – Não dá pra acreditar, venho visitar minha irmã e caio bem ao lado de um detetive de homicídios. Está trabalhando em algum caso no momento?
- Na verdade, acabamos de resolver e encerrar um ontem.
Caso complicado, ela imaginou, a julgar pela maneira como ele respondeu, com uma levíssima mudança de tom. Embora despertasse sua curiosidade, Deise conseguiu controlar-se.
- Tenho um assassinato em andamento agora mesmo. Uma série deles, na verdade. Tenho... – Calou-se. Vinícius viu os olhos dela obscurecerem. Deise recostou-se e apoiou os pés em uma cadeira vazia. – Posso mudar o lugar da ação, encaixar tudo aqui mesmo. Fica melhor. Funcionaria. O que acha?
- Bem, eu...
- Talvez eu deva dar um pulo à delegacia qualquer dia. Você poderia me mostrar as dependências. – Já levando a sequência de idéias ao estágio seguinte, ela enfiou a mão no bolso para pegar um cigarro. – É permitido, não?
- Eu provavelmente poderia resolver.
- Maravilha! Escute, você tem esposa, amante, namorada ou alguma coisa assim?
Ele encarou-a.
- No momento, não – respondeu cauteloso.
- Então talvez tenha duas horas de vez em quando à noite para mim.
Vinícius pegou o suco e tomou um longo gole.
- Duas horas – repetiu. – De vez em quando?
- É. Eu não ia esperar que me desse todo seu tempo livre, apenas alguns minutos quando estiver a fim.
- Quando eu estiver a fim – ele murmurou. [...]