17 de mai de 2013

Virtudes e Indecências - Parte 6



[...]
- Os caras ligam no telefone Fantasia; se são assíduos, podem pedir uma mulher especifica. Se são novos, pedem que eles relacionem suas preferências para indicar alguém com o perfil indicado.
- Que tipo de preferências?
Daiane sabia que Deise tinha uma tendência para entrevistar. Três taças de vinho impediram-na de irritar-se.
- Alguns preferem ficar com a maior parte da conversa, dizer o que vão fazer com a mulher, o que estão fazendo em si mesmos. Outros gostam que a mulher fale o tempo todo, conduzindo-nos até o clímax. Querem que ela se descreva, a roupa que está usando, o quarto. Alguns gostam de sadomasoquismo. Esses telefonemas eu não aceito.
Deise esforçava-se para levar tudo a sério.
- Você só fala de sexo normal?
Pela primeira vez em meses Daiane se sentia agradavelmente relaxada.
- Isso mesmo. E sou boa no que faço. Sou muito popular!
- Parabéns.
- De qualquer modo, os homens ligam para a Fantasia, deixam o número do telefone e de um cartão de crédito. O escritório se certifica de que o cartão é válido e entra em contato com uma de nós. Se eu concordo em aceitar a chamada, ligo de volta para o cliente no telefone que a Fantasia instalou aqui em casa, mas a ligação é cobrada direto no escritório.
- Claro. E depois?
- Depois a gente conversa.
- Depois você conversa – murmurou Deise. – Por isso é que tem um telefone extra no escritório.
- Você sempre nota as pequenas coisas.
Daiane percebeu, com grande satisfação, que se achava bem encaminhada para um porre. Era gostoso sentir a zonzeira na cabeça, o peso fora dos ombros, e a irmã sentada no outro lado da mesa.
- Dai, o que impede que esses caras descubram seu nome e endereço? Um deles poderia decidir que não quer mais ficar só na conversa.
Ela fez que não com a cabeça, limpando o leve circulo do copo que se formara na mesa.
- As fichas das funcionárias da Fantasia são estritamente confidenciais. O nosso número jamais, em circunstância alguma, é revelado aos clientes. A maioria de nós usa nomes falsos também. Eu sou Ticiane!
- Ticiane – repetiu Deise com certo respeito.
- Tenho 25 anos, sou loira e tenho um corpo insaciável.
- Verdade? – Embora lidasse melhor com a bebida, Deise comera apenas uma barra de chocolate a caminho do aeroporto. A idéia de Daiane ter um alter ego não apenas parecia plausível, mas lógica. – Mais uma vez, parabéns. Mas, Dai, digamos que um dos caras da Fantasia decidisse querer relações mais intimas que as de patrão/empregada?
- Você está criando uma história de novo – respondeu a irmã, com desdém.
- Talvez, mas...
- Deise, é totalmente seguro. Não passa de um contrato comercial. Eu apenas falo, os homens obtêm o equivalente ao dinheiro que gastaram, sou bem paga e a Fantasia recebe sua parcela. Todo mundo fica satisfeito.
- Parece lógico. – Deise girou o vinho e tentou repelir quaisquer dúvidas. – E na moda. Não se pega AIDS pelo telefone.
- Sadio, do ponto de vista médico. Do que está rindo?
- Só imaginando a cena. – Deise enxugou a boca com as costas da mão. – “medo de compromisso, farto do cenário dos solteiros? Ligue para a empresa Fantasia, converse com Ticiane, Dalila ou Camila. Orgasmos garantidos ou seu dinheiro de volta. Aceitamos os principais cartões de crédito.” Nossa, eu devia escrever textos publicitários.
- Nunca pensei nisso como uma piada.
- Você nunca considerou muita coisa na vida uma piada. – Disse Deise, com doçura. – Escute, na próxima vez em que estiver trabalhando, posso participar como ouvinte?
- Não.
Deise fez pouco caso da recusa com encolhimento de ombros.
- Bem, falaremos disso depois. Quando vamos comer? [...]