4 de mai de 2013

Virtudes e Indecências - Parte 5



[...]
- Eu não queria a separação. E não precisa me dizer que sou uma idiota por querer ficar com um homem que não me quer, porque eu já sei.
- Não acho você idiota. – Deise soprou uma baforada de fumaça, sentindo-se culpada porque achara a irmã uma idiota, mais de uma vez. – Você amava Jonathan e Kevin, e queria ficar com eles.
- Acho que isso resume tudo. – Daiane tomou um segundo gole de vinho. A irmã mais uma vez tinha razão. Era dos bons mesmo. Embora fosse difícil admitir, detestável admitir, precisava falar com alguém. Queria que esse alguém fosse Deise porque, quaisquer que fossem as diferenças entre as duas, ela ficaria incondicionalmente do seu lado. – Chegou a um ponto em que tive de aceitar a separação. – Ainda não conseguia pronunciar a palavra divórcio. – Jonathan... me maltratou.
- O que quer dizer? – A voz baixa e meio rouca de Deise desprendia farpas. – Ele agrediu você?
- Há outros tipos de maus-tratos – respondeu Daiane, desgastada. – Ele me humilhou. Tinha outras mulheres, muitas delas. Ah, era muito discreto. Duvido até que seu corretor soubesse, mas fazia questão de que eu soubesse. Apenas para esfregar na minha cara.
- Sinto muito.
Deise tornou a sentar-se. Sabia que Daiane teria preferido um soco no queixo à infidelidade. Ao pensar nisso, teve de admitir que, pelo menos nesse ponto, as duas concordavam.
- Você jamais gostou dele.
- Jamais gostei, e não me arrependo – admitiu Deise, e jogou a cinza na tampa de maionese vazia.
- Acho que não adianta falar disso agora. Em todo caso, quando concordei com a separação, Jonathan deixou claro que seria nos termos dele. Entraria com um pedido de divórcio no qual nenhum de nós dois era culpado pela dissolução do casamento; como se fosse apenas uma batida de carro. Oito anos da minha vida jogados fora, e ninguém para culpar.
- Dai, sabe que não precisava aceitar os termos dele. Se ele era infiel, você tinha um recurso.
- Como poderia provar? – Dessa vez Daiane mostrava ressentimento, caloroso e intenso. Esperara muito tempo para extravasá-lo. – Você precisa entender que tipo de mundo é este. Jonathan Costa é um homem perfeito. Advogado, sócio da firma da família que poderia representar o demônio contra o Todo-Poderoso e sair com um acordo. Mesmo que alguém soubesse ou desconfiasse, não iria me ajudar. As pessoas eram amigas da esposa de Jonathan. Srª Jonathan Costa. Essa foi minha identidade durante oito anos. Nenhuma delas daria a mínima para Daiane Sales. O erro foi meu. Tinha de ser a esposa e dona de casa perfeita. E me tornei chata. Quando o chateei bastante, ele quis se livrar de mim.
- Ao diabo com isso, Daiane, você precisa ser sempre sua pior critica? Ele foi o culpado, droga, não você. Você deu a Jonathan exatamente o que ele dizia querer. Abandonou a carreira, a família, o lar e concentrou a vida nele. Agora vai abandonar de novo, e jogar Kevin no acordo.
- Não estou abandonando Kevin.
- Você me disse...
- Eu não quis brigar com Jonathan, não podia. Tive medo do que ele faria.
Com muito cuidado, Deise largou de novo o vinho.
- Medo do que ele faria a você ou a Kevin.
- A Kevin, não – ela se apressou a dizer. – Jonathan jamais faria alguma coisa para prejudicar Kevin. Ele realmente adora o filho. E apesar de ter sido um péssimo marido é um pai maravilhoso.
- Tudo bem. – Deise evitaria qualquer julgamento sobre isso. – Tem medo do que ele faria a você, então? Fisicamente?
- Jonathan raras vezes perde a paciência. Ele mantém sob rígido controle, porque é muito violento.
- Eu sempre disse que ele era um príncipe. – resmungou a irmã.
- Uma vez teve um incidente com o ajudante do jardineiro. O rapaz arrancou um dos pés de rosa por engano. Foi apenas um mal-entendido, o coitado não falava muito bem português. Jonathan o demitiu no ato e os dois bateram boca. Antes que a discussão terminasse, Jonathan havia espancado o homem com tanta brutalidade que ele teve de ser hospitalizado.
- Santo Deus!
- Jonathan pagou a conta, claro.
- Claro – concordou Deise, mas esbanjando sarcasmo.
- Era apenas a roseira. Não sei o que faria se tentasse trazer Kevin comigo.
- Dai querida, você é mãe dele, tem direitos. Sei que há excelentes advogados em Roraima. Vamos procurar um, descobrir o que pode ser feito.
- Já contratei um. – Como tinha a boca seca, Daiane tomou outro gole. O vinho fazia as palavras saírem com mais facilidade. – E contratei um detetive particular. Não vai ser fácil, e me disseram que pode custar tempo e dinheiro, mas é uma chance.
- Estou orgulhosa de você. – Deise enlaçou as mãos com as da irmã. O sol já quase se pusera, deixando a cozinha em sombras. Os olhos de Deise, cinzentos como o entardecer, aqueceram-se. – Querida, Jonathan Costa não sabe o que o espera se decidir enfrentar os Sales. Tenho alguns contatos por aqui.
- Não, Deise, eu preciso manter isso discreto. Ninguém deve saber, nem sequer mamãe e papai. Simplesmente não posso correr o risco.
A escritora refletiu sobre os Costa um instante. As famílias ricas e tradicionais tinham tentáculos compridos.
- Tudo bem, talvez seja melhor assim. Mas de qualquer modo, eu posso ajudar. Advogados e detetives custam caro. Tenho mais do que preciso. [...]