28 de mai de 2013

Virtudes e Indecências - Parte 15



[...]
Eram quase 18 horas quando Vinícius parou na sua garagem. Demorara-se na delegacia procurando trabalho. A simples verdade era que estava nervoso. Gostava muito de mulheres, sem pretender entendê-las. O próprio trabalho impunha certos limites à vida social, mas, quando ele namorava, em geral via-se atraído pelas garotas de convivência fácil, e não pelas brilhantes demais. Jamais tivera o jeito do parceiro para arrebanhar mulheres aos montes ou fazer malabarismo com elas como um número de circo. Nem passara pelo repentino e total compromisso de Murilo com uma única mulher.
Preferia as que não avançavam rápido demais. Era verdade que gostava de conversas longas e estimulantes, mas raras vezes namorava uma mulher que sabia proporcionar-lhe essas conversas. E jamais analisara por quê.
Admirava o cérebro de D. S. Sales. Só não sabia como iria lidar com a escritora num nível social. Não tinha o hábito de ser convidado a sair por uma mulher, que, ainda por cima, marcava a hora e o lugar. Estava mais habituado a paparicar e guiar – teria ficado horrorizado e insultado se alguém o acusasse de machismo.
Sempre alimentara a ideia de que, quando casasse, sua mulher não precisaria trabalhar. Ele cuidaria dela, como o pai jamais cuidara da mãe. Como Vinícius sempre quisera cuidar.
Um dia, quando concluísse a reforma da casa, pintasse as paredes e cultivasse o jardim, encontraria a mulher certa e levaria para o lar. E cuidaria dela.
Enquanto se trocava, olhou pela janela a casa ao lado. Deise deixou as cortinas abertas e a luz acesa. Estava pensando nela quando ouviu a porta do quarto bater com força. Embora só pudesse vê-la dos quadris pra cima, teve certeza de que chutara alguma coisa. Depois começou a andar de um lado para o outro.


O QUE IRIA FAZER? Deise passou as mãos pelos cabelos como se pudesse arrancar as respostas. A irmã metera-se em apuros, estava mais enrascada do que já imaginara. E ela, impotente.
Não devia ter perdido as estribeiras, pensou. Gritar com Daiane era o equivalente a ler Guerra e paz no escuro. Conseguia apenas uma enxaqueca e nenhum entendimento. Alguma coisa tinha de ser feita. Jogando-se na cama, apoiou a cabeça nos joelhos. Desde quando isso vinha acontecendo?, perguntou-se. Desde o divórcio? Não obtivera respostas de Daiane, portanto tirara conclusões precipitadas de que isso também era culpa de Jonathan.
Mas o que iria fazer a respeito? Daiane estava furiosa com ela agora e não iria escutar. Deise sabia tudo sobre drogas – vira com demasiada frequência o que faziam às pessoas. Reconfortara algumas que vinham lutando para retomar o caminho de volta e distanciara-se  de outras que vinham avançando a toda para a destruição. Rompera um relacionamento por causa disso e afastara por completo aquele homem de sua vida.
Mas agora se tratava de sua irmã. Ele apertou os dedos contra os olhos e tentou pensar.
Valium. Três frascos receitados por médicos diferentes. E desconfiava que Daiane pudesse ter mais alguns escondidos na escola, no carro, sabe Deus onde.
Não estava xeretando, pelo menos não como a acusara a irmã. Precisava de um maldito lápis e sabia que Daiane teria guardado um na cômoda ao lado da cama. Encontrara o lápis, certo. Recém-apontado. E três frascos de pílulas.
- Você não sabe o que é sofrer – Daiane enfurecera-se com ela. – Não sabe o que é ter problemas reais. Tudo o que já tocou acabou dando certo. Eu perdi meu marido, perdi meu filho. Como ousa me passar um sermão sobre algo que faço para atenuar a dor?
Ela não encontrara as palavras certas, apenas raiva e recriminações. Enfrente-a, droga. Pelo menos dessa vez, enfrente-a. Por que não dissera “Vou cuidar de você” ? Estou aqui por você. Fora o que pretendera dizer. Podia voltar lá embaixo agora e pedir, gritar e obter apenas uma reação. A parede estava erguida. Já a enfrentara antes. Quando Daiane rompera com um namorado antigo, quando Deise conseguira o papel principal na peça da escola.
Família. Não podemos dar as costas quando se trata de família. Com um suspiro, Deise desceu para tentar mais uma vez. [...]