27 de mai de 2013

Virtudes e Indecências - Parte 14



[...]
Quando desceu do carro, Vinícius atirou-lhe uma moeda.
- Vai até o posto do outro lado da rua e compre uma xícara de café. Não demoro.
- Só dez minutos. Já é ruim demais perder a manhã toda no tribunal, tendo de descobrir as estratégias do defensor público, e agora tenho que agüentar o Sr. Dono de Casa.
- Você me disse para comprar uma casa.
- Não tem nada a ver. E não dá para comprar um café com essa moeda.
- Mostre o distintivo, talvez lhe dêem um desconto.
Resmungando, Murilo atravessou a rua. Se seria obrigado a esperar o parceiro, era melhor comprar um café e um salgado.
A pequena loja de conveniência estava quase vazia. Faltavam duas horas para a hora do rush, quando a loja ficaria lotada de gente para tomar uma saideira. A mulher do caixa lia um livro de bolso, mas ergueu os olhos e sorriu quando Murilo passou.
Nos fundos da loja, ao lado das placas de aquecimento de um forno micro-ondas, serviu-se de um café grande, depois pegou o bule de água quente e encheu uma xícara para Vinícius, que sempre tinha um saquinho de chá no bolso.
Houve uma época em que tinha certeza que o amigo cometera um erro imenso ao comprar aquela casa caindo aos pedaços. Mas a verdade era que ver a casa ser recuperada pouco a pouco o fizera pensar melhor. Talvez ele e Ádria devessem começar a procurar uma também. Nada com buracos nem ratos no sótão, como a de Vinícius, mas uma casa com um jardim de verdade. Em que pudessem criar os filhos, pensou, e depois disse a si mesmo para ir devagar. Devia ser o casamento que o fazia pensar no ano seguinte com a mesma freqüência que pensava no dia seguinte.
Bebendo o café, Murilo encaminhou-se para o caixa. Mal teve tempo de praguejar quando foi empurrado e o café derramou na camisa.
- Porra! – gritou, logo silenciando e imobilizando-se ao ver uma faca tremendo na mão de um garoto de uns 17 anos. – O dinheiro. – O garoto cutucava-o com a faca, enquanto gesticulava para a mulher do caixa. – Todo o dinheiro. Agora.
- Formidável – resmungou o detetive e olhou para a mulher atrás do caixa, que empalideceu e congelou no ato. – Escute garoto, não guardam nada nessas caixas registradoras.
- O dinheiro. Eu mandei você me dar a porra do dinheiro! – A voz do garoto elevou-se. Uma fina trilha de saliva esguichou quando ele falou, tingida de sangue do lábio inferior, que não parava de morder. Precisava de uma injeção de heroína e com urgência. – É melhor você o que eu to mandando, sua idiota, senão vou esculpir minhas iniciais na sua testa.
A mulher deu outra olhada para a faca e começou a agir.
Agarrou a bandeja e jogou-a no balcão. Moedas caíram e bateram com força no chão.
- A carteira – ele disse a Murilo, começando a enfiar notas e moedas nos bolsos. Era seu primeiro roubo. Não tinha a menor idéia de que seria assim tão fácil. Mas sentia o coração ainda preso na garganta e as axilas pingavam. – Tire devagar e jogue no balcão.
- Tudo bem. Fique calmo.
Pensou em enfiar a mão na jaqueta e pegar a arma. O garoto suava como um porco e tinha mais terror nos olhos que a mulher atrás do balcão. Em vez diz, Murilo pegou a carteira com dois dedos. Ergueu-a vendo o garoto acompanhá-la com o olhar. Então a jogou a menos de 2 centímetros do balcão. Tão logo o assaltante abaixou os olhos, ele avançou.
Derrubou a faca sem dificuldade. Foi então que a mulher atrás do balcão se pôs a berrar, um grito agudo após o outro, e continuou em pé, paralisada. O assaltante lutava como um urso ferido. Murilo firmou os braços em volta da cintura dele, mas, enquanto firmava os pés, eles caíram em cima de uma prateleira do mostruário, que desabou com os dois. Pirulitos e chicletes espalharam-se pelo chão. O garoto gritava e xingava, debatendo-se como um peixe enquanto apalpava o chão à procura da faca. O cotovelo de Murilo estalou contra o freezer de comida congelada com força suficiente para fazê-lo ver estrelas dançando na cabeça. Embaixo dele, o garoto era um frangote e estava encharcado de xixi devido ao nervosismo. O detetive fez o que pareceu mais fácil: sentou-se em cima do moleque.
- Você está preso, amigo. – Retirou o distintivo e enfiou-o na frente do rosto do menino. – E, do jeito que está tremendo, é a melhor coisa que poderia ter lhe acontecido. – O garoto já chorava quando ele sacou as algemas. Irritado e sem ar, Murilo ergueu os olhos para a mulher do caixa. – Quer chamar a policia, benzinho?
Vinícius saiu da loja de ferragens com um saco de dobradiças, meia dúzia de maçanetas de metal e quatro puxadores de cerâmica. Como encontrou o carro vazio, olhou para o outro lado da rua e viu uma viatura. Com um suspiro, largou o saco com cuidado no carro e saiu à procura do parceiro. Deu uma olhada na camisa de Murilo e depois no garoto que soluçava e tremia no fundo da viatura.
- Vejo que tomou o seu café.
- É. Por conta da casa, seu safado. - Murilo acenou para o policial uniformizado e, depois, com as mãos enfiadas nos bolsos, voltou ao outro lado da rua. – Agora vou ter de preencher o formulário. E olhe esta camisa. – Afastou-a da pele, onde se grudara fria e pegajosa. – Que diabos vou fazer com essas manchas de café?
- Borrifar um tira-manchas. [...]