23 de mai de 2013

Virtudes e Indecências - Parte 13



[...]
- Aonde você vai?
Como ganhara no jogo de cara ou coroa, era Vinícius quem se sentava atrás do volante. Ele e o parceiro, Murilo Pommerening, passaram quase o dia todo no tribunal. Não bastava pegar os bandidos, tinham de ficar horas depondo contra eles.
- O quê?
- Perguntei aonde vai. – Murilo segurava um saco gigante de M&M’s e comia sem parar. – Aonde vai com a escritora.
- Eu não sei. – Vinícius reduziu a macha no sinal vermelho, hesitou e depois atravessou o cruzamento.
- Você não parou no sinal. – Murilo mastigou o confeito. – O combinado é que, se vai dirigir, tem de obedecer a todos os sinais de trânsito.
- Não vinha ninguém. Acha que devo usar gravata?
- Como vou saber, não sei aonde vai? Além disso, você fica ridículo de gravata. Parece um touro com uma sineta amarrada no pescoço.
- Obrigado, parceiro.
- Vinícius, o sinal está mudando. O sinal... merda. – Jogou o confeito no bolso quando o colega avançou. – Então, quanto tempo a escritora vai ficar na cidade?
- Eu não sei.
- O que quer dizer com não sei? Não conversou com ela?
- Não perguntei. Achei que não era da minha conta.
- As mulheres gostam que a gente faça perguntas. – Murilo apertou o freio imaginário com o pé quando Vinícius fez uma curva cantando pneus. – D. S. Sales escreve coisas boas. É corajosa. Acho que lembra que fui eu quem deu a você o toque dos livros dela.
- Quer que eu dê seu nome ao nosso primeiro filho?
Com um riso baixo, Murilo empurrou o isqueiro do carro.
- E aí? Ela se parece com a foto no livro?
- Melhor. – Vinícius sorriu, mas baixou a janela quando Murilo acendeu o cigarro. – Tem olhos lindos. E sorri sem parar. Um sorriso maravilhoso.
- Não precisa muito tempo pra você ficar amarradão, não é?
O parceiro mexeu-se sem graça no assento e manteve os olhos na rua.
- Não sei o que você quer dizer.
- Já vi acontecer antes. – Murilo relaxou o pé do freio quando o parceiro diminuiu atrás de um sedã que seguia devagar. – Alguém de olhos grandes e sorriso maravilhoso agitar as pestanas e você se perder. Não tem resistência quando se trata de mulheres, meu chapa.
- Estudos mostram que homens casados há menos de seis meses desenvolvem uma tendência irritante a dar conselhos.
- Em todo caso, quando tenho razão, tenho razão. – A única pessoa que ele conhecia melhor que a si mesmo era Vinícius Vieira. Murilo seria o primeiro a admitir que não conhecia nem sua esposa tão intimamente. Não precisava de uma lente de aumento para reconhecer os primeiros sinais de uma paixão cega. – Por que não a leva lá em casa para um drinque? Assim, Ádria e eu podemos fazer um exame minucioso.
- Eu faço meu próprio exame, obrigado.
- Apoio moral, parceiro. Você sabe, agora que sou um homem casado, tenho uma opinião muito objetiva sobre as mulheres.
Vinícius riu.
- Papo-furado.
- Verdade. Absoluta verdade. – Murilo jogou o braço sobre o encosto do banco. – Ouça o que eu digo, falo com Ádria e a gente combina de se encontrar com vocês esta noite. Só pra protegê-lo de você mesmo.
- Obrigado, mas quero tentar lutar sozinho até o fim desta vez.
- Já contou a ela que você só come nozes e frutas vermelhas?
Vinícius lançou-lhe um olhar indulgente ao virar na curva seguinte.
- Poderia influenciar na escolha do restaurante. – Murilo fez o cigarro voar pela janela, mas o sorriso desfez-se quando o parceiro parou num estacionamento. – Ah, não, a loja de ferragens de novo, não.
- Preciso de dobradiças.
- Claro, é sempre isso que você diz. Tem sido um pé no saco desde que comprou aquela casa, Vieira. [...]