22 de mai de 2013

Virtudes e Indecências - Parte 12



[...]
- Estou de férias.
Tentou soar leve, mas a rispidez da outra se revelou:
- Eu não.
- Ótimo. Se não quer viajar, se incomoda de eu me distrair mexendo no jardim?
- Nem um pouco. – Daiane esfregou os olhos. As dores de cabeça já não pareciam desaparecer por completo. – Na verdade, ficaria grata. Não ligo mais para isso. Tínhamos um jardim lindo em Manaus, lembra?
- Claro. – Deise sempre o achara ordenado e formal demais, como Jonathan. Como Daiane. Detestou a pequena punhalada de ressentimento e afastou-a. – Podíamos tentar um visual mais de amores-perfeitos, e como eram mesmo aquelas coisas que a mamãe sempre adorou? Ipomeias.
- Tudo bem. – Mas a irmã tinha a mente em outras coisas. – Deise, a carne vai queimar.
Mais tarde, Daiane fechou-se no escritório. Deise ouvia a campainha do telefone, o telefone Fantasia, como decidira chamá-lo. Contou dez chamadas antes de subir. Agitada demais para dormir, ligou o computador. Mas não pensava em trabalho, nem nos assassinatos que criava.
O contentamento que sentira na noite anterior e durante quase todo o dia desaparecera. Daiane não estava bem. As mudanças de humor da irmã eram demasiado rápidas e intensas. Chegara-lhe na ponta da língua sugerir uma terapia, mas sabia qual seria a reação. Sua irmã lhe lançaria um daqueles olhares duros, contidos, e a conversa terminaria.
Deise mencionara Kevin apenas uma vez. Daiane avisara-a que não queria falar dele nem de Jonathan. Conhecia-a bem demais para perceber que já se arrependia dessa visita. O pior ainda era que Deise também começava a arrepender-se. Daiane sempre dava um jeito de enfatizar os piores aspectos dela, aspectos que, em outras circunstâncias, a própria Deise tentava relevar.
Mas viera para ajudar. De algum modo, apesar das duas, ia ajudar. Porém seria necessário um pouco de tempo, disse a si mesma para consolar-se, apoiando o queixo no braço. Via luzes nas janelas da casa ao lado.
Do quarto não ouvia a campainha do telefone tocar. Imaginava quantos telefonemas mais a irmã iria receber naquela noite. Quantos homens mais ela satisfaria sem sequer ver-lhes o rosto? Corrigiria as provas e daria as notas entre as ligações? Devia ser divertido. Torcia para que assim fosse, mas não conseguiu parar de ver a tensão no rosto de Daiane enquanto revolvia a comida no prato durante o jantar.
Nada podia fazer, disse a si mesma, esfregando as mãos sobre os olhos. A irmã decidira conduzir tudo à sua maneira.


ERA MARAVILHOSO OUVIR de novo a voz dela, ouvi-la fazer promessas e dar aquela rápida e rouca risada. Usava preto dessa vez, um tecido fino e transparente que um homem poderia rasgar sem pensar com repentino desejo. Ela gostaria disso, ele pensou. Gostaria que estivesse ali ao seu lado, rasgando-lhe as roupas.
O homem com quem ela conversava mal chegava a falar. Sentia-se alegre. Se fechasse os olhos, imaginava-a falando com ele. E só com ele. Vinha escutando-a durante horas, ligação após ligação. Depois de algum tempo, as palavras não tinham mais importância. Apenas a voz dela, a voz cálida, provocativa, que atravessava os fones de ouvido e entrava-lhe na cabeça. De algum lugar na casa, imagens e sons passavam na tela de uma televisão, mas ele não ouvia. Só ouvia Ticiane.
Ela o queria.
Em sua mente, ele às vezes a ouvia dizer seu nome. Thiago. Dizia-o com um riso entrecortado que muitas vezes tinha na voz. Quando a procurasse, Ticiane abriria os braços e diria de novo, devagar, quase sem ar: Thiago.
Fariam amor de todas as formas descritas por ela.
Thiago, Thiago, Thiago.
Ele estremeceu e recostou-se, esgotado, na cadeira giratória diante do computador.
Tinha 18 anos e só fizera amor com mulheres em sonhos. Nessa noite, os sonhos foram apenas com Ticiane.
E ele estava louco. [...]