21 de mai de 2013

Virtudes e Indecências - Parte 11



[...]
Deise tomou mais um copo de vinho e controlou a irritação. Em geral, era ela quem perdia primeiro as estribeiras, lembrou. Dessa vez não se irritaria.
- Ele é muito legal. Acabei sabendo que é policial. Vamos jantar juntos amanhã.
- Que coisa mais adorável! – Daiane botou com força uma panela no fogo e encheu-a com água. – Você trabalha rápido, Deise, como sempre.
A irmã tomou mais um gole de vinho e colocou com todo cuidado a taça no balcão.
- Acho que vou sair para dar uma volta.
- Desculpe. – Com os olhos fechados, Daiane curvou-se sobre o fogão. – Eu não pretendia fazer isso, não pretendia ser grosseira com você.
- Tudo bem. – Não era rápida no perdão, mas só tinha uma irmã. – Por que não se senta? Está cansada.
- Não, estou de plantão esta noite. Quero terminar o jantar antes de o telefone começar a tocar.
- Eu acabo o jantar. Você supervisiona. – Deise tomou o braço da irmã e empurrou-a delicadamente para uma cadeira. – O que entra na panela?
- Tem um pacote na sacola do supermercado.
Daiane enfiou a mão na bolsa, retirou o frasco e deixou cair duas pílulas.
Deise remexeu na sacola de compras e pegou um envelope.
- Talharim ao molho de alho. Prático. – Rasgou o pacote e despejou o conteúdo sem ler as instruções. – Seria bom se você não saltasse na minha garganta de novo, mas não quer conversar sobre isso?
- Não, foi apenas um dia longo. – A irmã engoliu as pílulas sem água. – Tenho provas para corrigir e dar notas.
- Bem, não serei capaz de ajudar em nada aí. Eu poderia atender aos telefonemas para você.
Daiane conseguiu esboçar um sorriso.
- Não, obrigada.
Deise pegou a saladeira e pôs na mesa.
- Talvez eu pudesse apenas fazer anotações.
- Não. Se não mexer aquele talharim vai grudar todo.
- Oh. – Disposta a ser prestativa, Deise virou-se para a panela. No silêncio, ouviu a carne começar a chiar. – A páscoa é na semana que vem. Você não tem alguns dias de folga?
- Cinco dias, incluindo o fim de semana.
- Que tal fazermos uma viagem rápida, nos juntarmos à loucura do Rio de Janeiro, tomar um pouco de sol?
- Não posso arcar com as despesas.
- Por minha conta, Dai. Vamos, será divertido. Lembra-se no último ano da faculdade, quando imploramos a mamãe e papai que nos deixassem ir?
- Você implorou – lembrou-lhe Daiane.
- Não importa, acabamos indo. Por três dias fomos a festas, bebemos à beça, ficamos bronzeadas e conhecemos dezenas de rapazes. Lembra aquele, Fernando ou Felipe, que tentou subir na janela do nosso quarto no hotel?
- Depois que você disse ao cara que estava interessada no corpo dele.
- Bem, estava mesmo. O coitado quase se matou. – Com uma risada, Deise espetou o talharim e perguntou-se se estava pronto. – Meu Deus, a gente era tão jovem e tão idiota. Puxa, Dai, ainda somos bastante enxutas para fazer alguns universitários nos desejarem.
- Farras etílicas e estudantes universitários não me interessam. Além disso, aceitei fazer plantão o fim de semana todo. Baixe o fogo do talharim para médio, Deise, e vire a carne.
Ela obedeceu e nada disse enquanto ouvia Daiane pôr a mesa. Não era apenas a bebidas nem os homens, pensou. Só queria resgatar alguma coisa da relação entre as irmãs que haviam partilhado.
- Você tem trabalhado demais.
- Não tenho a sua situação, Deise. Não posso me dar ao luxo de me deitar no sofá e ler revistas a tarde toda.
Deise pegou mais uma vez o vinho. E mordeu a língua. Havia dias que ficava sentada diante de uma tela durante 12 horas, e noites que trabalhava até as 3 horas. Durante a turnê de lançamento do livro, comparecia a programas de entrevista de TV e rádio, atendia jornais o dia inteiro e parte da noite até ter energia apenas para arrastar-se até a cama e cair num sono profundo. Talvez se considerasse sortuda, talvez ainda se surpreendesse com a quantidade de dinheiro que entrava dos cheques de direitos autorais, mas tudo isso era merecido. Era uma constante fonte de aborrecimento o fato da irmã jamais haver compreendido. [...]