20 de mai de 2013

Virtudes e Indecências - Parte 10



[...]
O roupão dela ia até o chão, mas se abrira no meio, revelando as pernas, brancas do inverno e lisas como mármore.  Talvez os milagres verdadeiros ainda acontecessem.
- Você poderia ser uma espécie de consultor especialista, entende? Quer dizer, quem conheceria melhor as investigações de assassinatos locais que um detetive de homicídios?
Consultor. Um tanto perturbado pelo próprio pensamento, Vinícius afastou a menta das pernas dela.
- Certo. – Ele exalou um suspiro e sorriu. – Você arregaça as mangas e entra logo em ação, não, Srta. Sales?
- É Deise, e sou impositiva, mas não ficarei chateada por muito tempo se você disser não.
Vinícius se perguntou, ao examiná-la, se algum homem no mundo conseguiria dizer não àqueles olhos. De qualquer forma, seu parceiro, Murilo, sempre dissera que ele era um bundão.
- Tenho duas horas livres de vez em quando.
- Obrigada. Escute, que tal jantar amanhã? A essa altura, Dai vai ficar emocionada por se livrar de mim. Podemos falar de assassinato. Eu convido.
- Adoraria!
Ele levantou, sentindo-se como se acabasse de dar um passeio rápido e inesperado.
- Me deixe autografar seu livro. – Após uma procura rápida, ela encontrou uma caneta num suporte magnético junto ao telefone. – Não sei seu nome.
- É Vinícius. Vinícius Vieira.
- Oi, Vinícius. – Ela rabiscou qualquer coisa na primeira página e, sem perceber, enfiou a caneta no bolso. – Até amanhã, por volta das sete?
- Combinado. Obrigado pelo autógrafo!
Deise acompanhou-o até a porta dos fundos. Ele tinha um cheiro gostoso. Então, esfregando a mão uma na outra, ela subiu para ligar o Macbook.
Trabalhou o dia todo, deixando o almoço de lado por uma barra de chocolate que encontrou no bolso do casaco. Sempre que subia à tona do mundo criado e transformado por ela para o que circundava, ouvia o martelar e serrar na casa ao lado. Instalara seu posto de trabalho ao lado da janela porque gostava de olhar aquela casa e imaginar o que acontecia lá dentro.
Notou um carro parar na entrada da garagem. Um homem alto, magro, de pernas longas e cabelos escuros saltou, atravessou animadamente a calçada e entrou na casa sem bater. Deise especulou sobre ele um instante e tornou a mergulhar na trama. Na vez seguinte que seu deu ao trabalho de olhar, haviam se passado duas horas e o carro fora embora.
Ela arqueou-se para trás; então, pescando o último cigarro do maço, releu do principio ao fim os últimos parágrafos.
- Bom trabalho, Macbook – declarou.
Como os pensamentos divagaram para a irmã, levantou-se para arrumar a cama.
O baú ficara no meio do quarto. O rapaz de entrega na verdade levara-o até o andar de cima para ela, e o com o mínimo de incentivo teria o esvaziado. Deise olhou-o, porém pensou e optou por lidar com o caos ali dentro depois. Em vez disso, desceu, encontrou no rádio uma estação das quarenta músicas mais tocadas e encheu a casa com o som dos últimos sucessos do momento.
Daiane encontrou-a na sala de estar, refestelada no sofá com uma revista e uma taça de vinho. Teve de reprimir uma onda de impaciência. Acabara de passar o dia batalhando para enfiar alguma coisa na cabeça de 130 adolescentes. A reunião com os pais não levara a lugar algum, e o carro começara a fazer ruídos estranhos no caminho de volta para a casa. E lá estava a irmã, sem nada além de tempo de sobra nas mãos e dinheiro no banco.
Carregando o saco do supermercado no braço, foi até o rádio e desligou-o. Deise ergueu os olhos, focou-os e sorriu.
- Oi, não ouvi você entrar.
- Não me surpreende. Pôs o rádio no volume máximo.
- Desculpe. – Deise lembrou-se de pôr a revista de volta na mesa, em vez de deixar deslizar para o chão. – Dia difícil?
- Alguns de nós têm.
Virou-se e dirigiu-se à cozinha.
Deise jogou os pés para o chão, continuou sentada por mais um instante, com a cabeça na mão. Após inspirar fundo algumas vezes, levantou-se e seguiu a irmã até a cozinha.
- Eu me adiantei e reforcei a salada de ontem à noite. Ainda é a coisa que sei fazer melhor.
- Ótimo.
Daiane já forrava um grelha com papel alumínio.
- Quer um pouco de vinho?
- Não, trabalho esta noite.
- No telefone?
- Isso mesmo. No telefone.
Bateu a carne na grelha.
- Escute, Dai, estou perguntando, e não criticando. – Como não obteve resposta, Deise pegou o vinho e encheu sua taça. – Na verdade, me passou pela cabeça abordar o que você faz no meu livro.
- Você não muda, não é? – A irmã voltou-se para Deise. Dos olhos, a fúria desprendia-se quente e pulsante. – Nada jamais é considerado um assunto particular para você.
- Pelo amor de Deus, Dai, eu não quis dizer que vou usar seu nome, nem sequer sua situação, apenas a idéia, só isso. Foi apenas um pensamento que me ocorreu.
- Tudo é um grão para ser moído no moinho, no seu moinho. Quem sabe não gostaria de usar meu divórcio enquanto o vê se desenrolar.
- Eu nunca usei você – disse Deise, em voz baixa.
- Usa todo mundo... amigos, amantes, família. Ah, você se solidariza com a dor e os problemas deles por fora, mas por dentro fica arquivando na mente, imaginando com aproveitar tudo em seu favor. Será que consegue ouvir alguma coisa, ver alguma coisa, sem pensar em como usar num livro?
Deise abriu a boca para negar, protestar, depois tornou a fechá-la com um suspiro. Era melhor enfrentar a verdade.
- Não, acho que não. Lamento.
- Então deixa pra lá, está bem? – A voz de Daiane de repente tornou a acalmar-se: - Não quero brigar esta noite.
- Nem eu. – Deise fez um esforço para mudar de assunto. – Eu estava pensando que podia alugar um carro enquanto estiver aqui, dar uma de turista por um tempo. E de carro poderia fazer as compras e poupar algumas horas suas.
- Ótimo – disse Daiane enquanto ligava a grelha. – Tem uma locadora de automóveis no caminho da escola. Posso deixar você lá amanhã de manhã.
- Tenho certeza que sim.
Com a voz tensa, a irmã colocou a carne na grelha sobre a chama. Surpreendia-a que Deise não houvesse feito amizade com todos no bairro inteiro a essa altura. [...]