21 de mai de 2013

Dois Lados


               Estava eu dando aula, falando aos alunos sobre a Antiguidade Clássica quando mais uma vez, sou obrigado a parar minha explicação para passar bronca nos membros da “Al-Gazarra”, alunos bagunceiros, desbocados, que transformam a vida do professor na sala de aula em um inferno, e que são assim chamados em referência aos grupos terroristas do oriente Médio. Na sala em que estou à maioria é membro da Al-Gazarra, poucos realmente me ouvem para aprender, passei um bom tempo da aula dando sermão, reclamando da zorra feita por eles.
                Não sei por que ainda não tinha desistido, jogado tudo pro alto. Explico a eles o desafio que é ser professor de escola pública no Brasil, onde o governo nos abandona, onde os alunos na maioria não nos querem e até nos agridem, pais que acham que somos servos dos seus filhos. Percebo que a maioria nem ligou para o que falei, então quando a turma se acalma, se aquieta, me viro pro quadro pra ver onde parei na explicação, ainda abalado pelo desabafo, mas nisso, um aluno finge o som da sirene com a boca, 20 minutos antes do fim da aula, e ainda com o emocional frágil, explodo com o aluno, passo a gritar com ele como se fosse louco, nisso outro aluno se levanta, um dos bons, com sede de saber, ele tenta me acalmar, mas na minha raiva tudo o que consigo é perceber que ele está sem o livro e passo a gritar com ele. O aluno se mostra impassível, me olha nos olhos todo momento, e quando paro pra respirar ele diz:
  - Desculpa professor, Saí do trabalho um pouco mais tarde que o normal, quando passei em casa foi apenas para pegar meu material, nem pra almoçar parei, peguei a mochila como a deixei ontem.
                O que ele me diz consegue me atingir no peito, me acalmo, lembro que ele é um bom aluno, daqueles que valem a pena ensinar, peço desculpas aos alunos, lembro o porquê de eu ter virado professor, pra ajudar pessoas assim. Ao fim da aula, saio da sala de cabeça baixa, envergonhado pela atitude de mais cedo, mas no corredor, sou parado por aquele aluno, que do nada me abraça e diz:
  - Não há do que se envergonhar professor, todo mundo tem seu momento difícil, apenas não desista e continue na luta, um dia, a gente chega lá...

Fim.