29 de abr de 2013

Virtudes e Indecências - Parte 4



[...]
Ao parar ao lado do carro, Deise deixou o olhar vagar de um lado ao outro da rua. Observou algumas bicicletas e caminhonetes velhas e recém pintadas. Embora fosse acolhedor, o bairro parecia se encaminhar para um tempo passado, quando coisas usadas e gastas dominavam a paisagem. Ela gostou dali, gostou daquela atmosfera.
Era exatamente o lugar que teria escolhido se tivesse decidido voltar. E se tivesse de escolher uma casa... seria a casa vizinha à irmã, concluiu de imediato. O imóvel parecia necessitar de reparos. Além de uma janela tampada com ripas de madeira, faltavam telhas. Alguém havia plantado azaléias, e a terra continuava nova e socada em montículos na base das mudas, baixas, de apenas uns 30 centímetros de altura. Mas os botõezinhos já se mostravam quase prontos para irromper com vida. Olhando-os, ela desejou poder ficar tempo suficiente para vê-los florir.
- Oh, Dai, que lugar lindo!
- Não tem nada a ver com Palm Springs – disse a irmã, sem ressentimento, ao começar a descarregar as coisas de Deise.
- É não tem mesmo, querida. Mas é um verdadeiro lar.
 Ela falava sério. Com o olhar e a imaginação de escritora, quase já conseguia visualizar o interior da casa.
- Eu queria dar a Kevin alguma coisa quando... quando ele vier.
- Ele vai amar este lugar – afirmou Deise, com confiança na voz. – Sem dúvida, esta é uma calçada para andar de skate. Daí, este lugar me faz pensar que diabos estou fazendo em Manhattan.
- Ficando rica e famosa.
Mais uma vez, disse isso sem ressentimento, enquanto passava as sacolas para a irmã.
Pela segunda vez, Deise desviou o olhar para a casa ao lado.
O interior da casa não chegou a ser uma surpresa. Daiane preferia coisas organizadas e ordenadas. O mobiliário era sólido, sem poeira e de bom gosto. É a cara dela, pensou Deise, com uma pontada de desânimo. Mesmo assim, gostou da pequena casa.
Daiane transformara um dos pequenos cômodos em escritório. A escrivaninha ainda brilhava novinha em folha. Não levara nada da antiga vida consigo, reparou Deise. Nem mesmo o filho. Embora achasse estranho ver um telefone na escrivaninha e outro a poucos metros, ao lado de uma cadeira, não fez nenhum comentário. Conhecendo a irmã, sabia que teria uma justificativa perfeita para aquilo.
- Hum, molho de espaguete.
O cheiro levou-a sem hesitar à cozinha. A cozinha era tão imaculada quanto o resto da casa. Ergueu a tampa de uma panela para sentir o delicioso aroma que emanava do seu interior.
- Eu diria que você não perdeu o toque.
- Ele retornou para mim – respondeu Daiane. – Mesmo após anos de cozinheiras e empregados. Está com fome – Então, pela primeira vez, seu sorriso pareceu relaxado. – Espere, eu trouxe uma coisa.
Quando a irmã voltou correndo à sala, virou-se para a janela. Por que de repente se dava conta de como a casa parecia vazia antes de Deise estar ali? O que iria fazer quando ficasse mais uma vez sozinha?
- Valpolicella – anunciou Deise ao retornar à cozinha. - Como você vê, eu contava com a comida italiana.
Daiane se afastou da janela e as lágrimas começaram a aflorar.
- Oh, querida.
Com a garrafa ainda na mão, Deise logo se aproximou.
- Dei, sinto tanta falta dele. Às vezes acho que vou morrer.
- Eu sei que sente. Oh, meu bem, eu sei. Lamento tanto. – Deise afagou os cabelos da irmã. – Me deixe ajudar, Daiane, me diga o que posso fazer.
- Nada – O esforço custou mais do que ela admitiria, mas conteve as lágrimas. – É melhor eu preparar a salada.
- Espere. – Com a mão no braço da irmã, Deise levou-a até a mesa da cozinha. – Sente-se. Falo sério, Daiane.
- Realmente não quero falar disso, Deise.
- Imagino que seja ruim demais, então. Saca-rolha?
- Gaveta de cima à esquerda da pia.
- Taças?
- Segunda prateleira, armário junto à geladeira.
- Beba, é um excelente vinho. – Encontrou um vidro de maionese no lugar onde a mãe o teria guardado, retirou a tampa e usou-a como cinzeiro. Acendeu um cigarro, serviu-se de vinho e sentou-se. – Fale comigo, Dai. Vou importuná-la até você me contar tudo. [...]