28 de abr de 2013

Virtudes e Indecências - Parte 3



[...]
- Tem falado com mamãe e papai?
- Falei na semana passada. Estão bem. – Daiane entrou no carro e colocou o cinto de segurança. – Você diria que Porto Alegre é o paraíso.
- Contanto que eles se sintam felizes.
Deise recostou-se e pela primeira vez pôde observar o lugar onde estava. Aeroporto nacional. Tomara o primeiro avião de partida dali havia oito, não, meu Deus, havia quase dez anos. E ficara apavorada até o último fio de cabelo. Quase desejou sentir de novo aquela mesma experiência nova e inocente.
Está ficando esgotada, Dei? Perguntou-se. Demasiados vôos, demasiadas cidades, demasiadas pessoas. Agora estava de volta, a alguns quilômetros apenas da casa em que fora criada, e sentava-se ao lado da irmã. Não tinha, porém, sensação alguma de retorno ao lar.
- O que fez você voltar para Boa Vista, Dai?
- Eu queria sair de Manaus. E tudo aqui era conhecido.
Mas não quis ficar perto do seu filho? Não precisava ficar? Não era hora de perguntar, mas Deise teve que repelir as palavras.
- E dar aulas na Escola Nossa Senhora da Esperança. É algo conhecido também, mas deve ser estranho. – disse Deise.
- Eu gosto muito. Acho que preciso da disciplina das aulas – respondeu a irmã.
Ela dirigiu pelo estacionamento com precisão calculada. Enfiados na aba do protetor solar estavam o tíquete do estacionamento rotativo e três moedas de 1 real. Deise notou que ela ainda contava o troco.
- E a casa, gosta dela?
- O aluguel é razoável e fica a apenas 15 minutos de carro da escola.
Deise conteve um suspiro. Poderia Daiane algum dia sentir algo intensamente?
- Está saindo com alguém?
- Não. – Daiane deu um sorriso enquanto pegava a via expressa. – Não estou interessada em sexo.
Deise ergueu a sobrancelha.
- Todo mundo está interessado em sexo. Por que acha que Jackie Collins sempre entra na lista dos livros mais vendidos? De qualquer modo, eu me referia a um companheiro.
- Não tem ninguém com quem eu queira estar no momento. – Então pôs a mão em cima da de Deise, o que era mais do que já tivera condições de dar a alguém, além do marido e do filho. –  A não ser você. Estou feliz por ter vindo!
Como sempre, Deise reagia ao afeto quando o recebia.
- Teria vindo mais cedo se você tivesse permitido...
- Você estava no meio de uma turnê de divulgação do seu livro.
- As turnês podem ser canceladas – respondeu Deise, impaciente.
Nunca se considerou temperamental nem arrogante, mas teria se comportado dessa forma se fosse para atender a um pedido da irmã. – Bem, a turnê terminou e estou aqui. Em Boa Vista, na primavera. – Abriu a janela, embora o vento de abril ainda soprasse com a intensidade de março. – E as cerejeiras em flor?
- Foram atingidas pela última chuva.
- Nada muda por aqui.
Tinham tão pouco a dizer uma à outra? Deise deixou o rádio preencher o silêncio enquanto seguiam. Como era possível duas pessoas que cresceram juntas e conviveram por tanto tempo se sentirem duas estranhas? Toda vez ela alimentava a esperança de que seria diferente. Toda vez era a mesma coisa.
Lembrou-se do quarto em que ela e Daiane haviam dividido na infância. Arrumado e organizado de um lado, revirado e bagunçado do outro.  Esse era o estilo de Daiane.
A única coisa que surpreendeu foi a rua que escolhera para morar. Um bairro decadente, um tanto precário, de grandes árvores e residências antigas.
A casa dela era uma das menores da quadra e, embora Deise tivesse certeza de que a irmã nada fizera ao pequeno jardim além de podá-lo, alguns bulbos abriam caminho pela alameda varrida com todo capricho. [...]