27 de abr de 2013

Virtudes e Indecências - Parte 2

[...]


Quando o avião chegou ao portão, Deise esperou todos os passageiros apressados tomarem o corredor. Sabia que Daiane provavelmente estaria andando de um lado para o outro, certa de que a irmã distraída perdera de novo um vôo, mas precisava de um minuto. Queria lembrar o amor, não as brigas das duas.
Como previra Deise, a irmã esperava no portão. Observava os passageiros saírem em fila e parecia estar impaciente. Sabia que Deise sempre viajava na primeira classe, mas não se encontrava entre as primeiras pessoas a saírem do avião. Nem entre as primeiras cinqüenta. Na certa, conversava com a tripulação, pensou, e tentou ignorar uma rápida pontada de inveja.
Deise nunca precisava tentar fazer amigos. As pessoas simplesmente se sentiam atraídas por ela. Dois anos após a colação de grau, a irmã bem-sucedida, que passara pela escola como por magia, vinha ascendendo na carreira. Uma vida inteira, e ela, Daiane, a aluna destacada, despendia esforços, sem resultados, na mesma escola de ensino médio em que haviam se formado. Sentava-se do outro lado da mesa agora, porém pouco mudara.
O auto-falante anunciava chegadas e partidas de aviões. Informação sobre mudança de portão e atrasos, mas ainda nada de Deise. Assim que resolveu verificar no balcão, viu a irmã cruzar o portão. A inveja desfez-se, a irritação desapareceu. Era quase impossível aborrecer-se com Deise quando se via diante dela.
Por que ela sempre parecia ter acabado de descer do carrossel? Os cabelos, do mesmo tom escuro que os seus e cortados na linha dos ombros, estavam sempre esvoaçantes ao redor do rosto. As duas tinham o corpo esguio, mas enquanto o seu parecia sempre rígido, o de Deise era flexível como um salgueiro, pronto a curva-se para qualquer lado que soprasse a brisa. Deise estava com a roupa amarrotada, um suéter batendo na altura dos quadris sobre a calça justa de malha, óculos escuros caídos no nariz, as mãos cheias de sacolas e pastas. Daiane continuava metida na saia e no blazer com quem dera todas as aulas de história naquele dia. Deise usava tênis amarelo-canário de cano alto para combinar com o suéter.
- Dai! – Tão logo viu a irmã, Deise largou tudo o que segurava sem se importar com o incomodo que causava ao fluxo de passageiros atrás dela. Abraçou-a como fazia com tudo em sua vida, com total entusiasmo. – Que bom ver você! Está esplêndida. Perfume novo. – Deu uma grande aspirada. – Gostei.
- Senhora, quer tirar suas coisas da frente?
Ainda abraçada a Daiane, ela sorriu para o atormentado empresário que estava logo atrás.
- Pode passar por cima. – E ele o fez, resmungando. – Tenha um bom vôo – disse, enquanto se voltava para irmã. – Então, como estou? Gostou do meu cabelo? Espero que sim, acabei de gastar uma fortuna em fotos de publicidade.
- Você fez escova?
Deise levou uma das mãos aos cabelos.
- Fiz.
- Combina com você – disse Daiane. – Vamos, provocaremos um tumulto aqui se você não tirar suas coisas do caminho. O que é isso? – Ergueu uma das maletas.
- MacBook. – Deise começou a juntar as sacolas. – Um notebook. Estamos tendo o mais maravilhoso dos casos.
- Achei que estivesse de férias – comentou a irmã.
Conseguiu afastar o fio cortante da voz. O notebook era mais uma evidência do sucesso de Deise. E do seu próprio fracasso.
- Estou de férias. Mas preciso me manter ocupada enquanto você estiver na escola. Se o avião se atrasasse mais dez minutos teria terminado um capitulo. – Olhou o relógio, notou que tinha parado de novo, mas não se importou. – Sério, Dai, é o mais maravilhoso assassinato.
- E a sua bagagem? – interrompeu Daiane, sabendo que a irmã ia começar a contar a história sem qualquer incentivo.
- Meu baú será entregue na sua casa amanhã.
O baú era mais uma das excentricidades da irmã.
- Deise, quando vai começar a usar malas como pessoas normais?
Quando o inferno congelar, Deise pensou em responder, mas apenas sorriu.
- Você está realmente ótima. Como se sente?
- Bem. – Então como era sua irmã, Daiane relaxou. – Estou melhor, na verdade.
- Muito melhor sem aquele filho da mãe. – disse Deise ao cruzarem as portas automáticas. – Detesto dizer isso, porque sei que você o amava, mas é verdade. – Uma forte brisa fria soprava, fazendo com que as pessoas esquecessem que era primavera. Deise seguia na direção do estacionamento, sem olhar para os lados. – Kevin foi a única verdadeira alegria que ele trouxe à sua vida. Aliás, cadê o meu sobrinho? Eu esperava que viesse com você!
A pequena pontada de dor veio e se foi. Quando Daiane tomava uma decisão sobre alguma coisa, também a tomava com o coração.
- Com o pai. Concordamos que seria melhor ele ficar com o Jonathan durante o ano letivo.
- Como assim? – Deise parou no meio da rua. Alguém buzinou com força, mas ela ignorou. – Daiane, você não pode estar falando sério. Kevin só tem 6 anos. Ele precisa ficar com você. Jonathan na certa faz o menino ver o noticiário em vez de desenho.
- A decisão já foi tomada. Concordamos que seria melhor para todos. – Deise conhecia essa expressão. Significava que Daiane se fechara e não se abriria de novo até se sentir mais segura.
- Tudo bem. – Acompanhou os passos da irmã enquanto atravessavam o estacionamento. Automaticamente, alterou o ritmo. Daiane sempre se apressava. – Sabe que pode falar comigo quando quiser.
- Eu sei. – A irmã parou ao lado do Toyota de segunda mão.
Um ano antes dirigia uma Mercedes. Mas isso fora o mínimo que perdera. – Não tive intenção de ser ríspida com você, Deise. Só não quero falar disso por algum tempo. Minha vida já está quase toda em ordem. – Deise acomodou as sacolas na parte de trás e nada disse. Sabia que o carro era de segunda mão e bem abaixo do que a irmã se habituara, porém a rispidez na voz a preocupava muito mais que a mudança de status dela. Queria reconfortá-la, mas sabia que Daiane considerava compaixão algo próximo do sentimento de pena [...]