26 de abr de 2013

Virtudes e Indecências - Parte 1

1
O avião sobrevoava levemente inclinado. Deise abriu a pasta que estava no seu colo. Precisava guardar uma dezena de coisas, mas não conseguia parar de contemplar a paisagem da janela. Nada para ela se comparava a voar.
O vôo estava atrasado. Sabia disso porque o homem da outra fileira, na poltrona 3B, não parava de reclamar. Sentiu-se tentada a estender o braço até o outro lado do corredor e dar-lhe um tapinha na mão, tranquilizá-lo, dizer que dez minutos afinal não importavam tanto. Mas não parecia que ele ia apreciar seu gesto.
Daiane também reclamaria, pensou. Mas não em voz alta. Deu um sorriso e recostou-se para o pouso. Talvez ela também ficasse irritada como o ocupante da 3B, mas não seria mal-educada a ponto de resmungar e afligir-se.
Se conhecia a irmã, e na verdade conhecia, Daiane teria saído de casa com mais de uma hora de antecedência, por levar em consideração a imprevisibilidade do tráfego da cidade. Percebera o tom irritado na voz da irmã porque Deise escolhera um vôo que chegava às 18h30, o pico da hora do rush. Com vinte minutos de sobra, Daiane pararia o carro no estacionamento rotativo, fecharia as janelas, trancaria as portas e seguiria em frente, sem ser tentada pelas lojas, até o portão. Jamais erraria o caminho nem misturaria os números em mente.
Daiane era sempre pontual. Deise, sempre atrasada. Nenhuma novidade.
Mesmo assim, desejava, desejava realmente que pudesse haver alguma afinidade entre as duas. Apesar de serem irmãs, raras vezes se entendiam.
O avião aterrissou com um sacolejo, e Deise começou a jogar tudo que tinha nas mãos dentro da pasta. Batom embolado com fósforos, canetas com pinça. Outra coisa que uma mulher organizada como Daiane jamais entenderia. Havia lugar para tudo. Ela até concordava com este principio, mas seu lugar parecia estar em constante mutação.
Mais de uma vez perguntara-se como podiam ser irmãs. Era descuidada, avoada e bem sucedida; Daiane, organizada, prática e batalhadora. No entanto, nasceram dos mesmos pais, foram criadas na mesma pequena casa de tijolos aparentes e freqüentaram a mesma escola.
As professoras jamais conseguiram ensinar-lhe como organizar uma agenda, mas mesmo no sétimo ano do ensino fundamental já ficavam fascinados com seu talento para compor histórias [...]