30 de abr de 2013

Duo


Duo duo duo,
Nunca uno.
Nunca trio.
Sempre duo duo duo.
Acho que assim, a luta é mais justa.

29 de abr de 2013

Virtudes e Indecências - Parte 4



[...]
Ao parar ao lado do carro, Deise deixou o olhar vagar de um lado ao outro da rua. Observou algumas bicicletas e caminhonetes velhas e recém pintadas. Embora fosse acolhedor, o bairro parecia se encaminhar para um tempo passado, quando coisas usadas e gastas dominavam a paisagem. Ela gostou dali, gostou daquela atmosfera.
Era exatamente o lugar que teria escolhido se tivesse decidido voltar. E se tivesse de escolher uma casa... seria a casa vizinha à irmã, concluiu de imediato. O imóvel parecia necessitar de reparos. Além de uma janela tampada com ripas de madeira, faltavam telhas. Alguém havia plantado azaléias, e a terra continuava nova e socada em montículos na base das mudas, baixas, de apenas uns 30 centímetros de altura. Mas os botõezinhos já se mostravam quase prontos para irromper com vida. Olhando-os, ela desejou poder ficar tempo suficiente para vê-los florir.
- Oh, Dai, que lugar lindo!
- Não tem nada a ver com Palm Springs – disse a irmã, sem ressentimento, ao começar a descarregar as coisas de Deise.
- É não tem mesmo, querida. Mas é um verdadeiro lar.
 Ela falava sério. Com o olhar e a imaginação de escritora, quase já conseguia visualizar o interior da casa.
- Eu queria dar a Kevin alguma coisa quando... quando ele vier.
- Ele vai amar este lugar – afirmou Deise, com confiança na voz. – Sem dúvida, esta é uma calçada para andar de skate. Daí, este lugar me faz pensar que diabos estou fazendo em Manhattan.
- Ficando rica e famosa.
Mais uma vez, disse isso sem ressentimento, enquanto passava as sacolas para a irmã.
Pela segunda vez, Deise desviou o olhar para a casa ao lado.
O interior da casa não chegou a ser uma surpresa. Daiane preferia coisas organizadas e ordenadas. O mobiliário era sólido, sem poeira e de bom gosto. É a cara dela, pensou Deise, com uma pontada de desânimo. Mesmo assim, gostou da pequena casa.
Daiane transformara um dos pequenos cômodos em escritório. A escrivaninha ainda brilhava novinha em folha. Não levara nada da antiga vida consigo, reparou Deise. Nem mesmo o filho. Embora achasse estranho ver um telefone na escrivaninha e outro a poucos metros, ao lado de uma cadeira, não fez nenhum comentário. Conhecendo a irmã, sabia que teria uma justificativa perfeita para aquilo.
- Hum, molho de espaguete.
O cheiro levou-a sem hesitar à cozinha. A cozinha era tão imaculada quanto o resto da casa. Ergueu a tampa de uma panela para sentir o delicioso aroma que emanava do seu interior.
- Eu diria que você não perdeu o toque.
- Ele retornou para mim – respondeu Daiane. – Mesmo após anos de cozinheiras e empregados. Está com fome – Então, pela primeira vez, seu sorriso pareceu relaxado. – Espere, eu trouxe uma coisa.
Quando a irmã voltou correndo à sala, virou-se para a janela. Por que de repente se dava conta de como a casa parecia vazia antes de Deise estar ali? O que iria fazer quando ficasse mais uma vez sozinha?
- Valpolicella – anunciou Deise ao retornar à cozinha. - Como você vê, eu contava com a comida italiana.
Daiane se afastou da janela e as lágrimas começaram a aflorar.
- Oh, querida.
Com a garrafa ainda na mão, Deise logo se aproximou.
- Dei, sinto tanta falta dele. Às vezes acho que vou morrer.
- Eu sei que sente. Oh, meu bem, eu sei. Lamento tanto. – Deise afagou os cabelos da irmã. – Me deixe ajudar, Daiane, me diga o que posso fazer.
- Nada – O esforço custou mais do que ela admitiria, mas conteve as lágrimas. – É melhor eu preparar a salada.
- Espere. – Com a mão no braço da irmã, Deise levou-a até a mesa da cozinha. – Sente-se. Falo sério, Daiane.
- Realmente não quero falar disso, Deise.
- Imagino que seja ruim demais, então. Saca-rolha?
- Gaveta de cima à esquerda da pia.
- Taças?
- Segunda prateleira, armário junto à geladeira.
- Beba, é um excelente vinho. – Encontrou um vidro de maionese no lugar onde a mãe o teria guardado, retirou a tampa e usou-a como cinzeiro. Acendeu um cigarro, serviu-se de vinho e sentou-se. – Fale comigo, Dai. Vou importuná-la até você me contar tudo. [...]

28 de abr de 2013

Virtudes e Indecências - Parte 3



[...]
- Tem falado com mamãe e papai?
- Falei na semana passada. Estão bem. – Daiane entrou no carro e colocou o cinto de segurança. – Você diria que Porto Alegre é o paraíso.
- Contanto que eles se sintam felizes.
Deise recostou-se e pela primeira vez pôde observar o lugar onde estava. Aeroporto nacional. Tomara o primeiro avião de partida dali havia oito, não, meu Deus, havia quase dez anos. E ficara apavorada até o último fio de cabelo. Quase desejou sentir de novo aquela mesma experiência nova e inocente.
Está ficando esgotada, Dei? Perguntou-se. Demasiados vôos, demasiadas cidades, demasiadas pessoas. Agora estava de volta, a alguns quilômetros apenas da casa em que fora criada, e sentava-se ao lado da irmã. Não tinha, porém, sensação alguma de retorno ao lar.
- O que fez você voltar para Boa Vista, Dai?
- Eu queria sair de Manaus. E tudo aqui era conhecido.
Mas não quis ficar perto do seu filho? Não precisava ficar? Não era hora de perguntar, mas Deise teve que repelir as palavras.
- E dar aulas na Escola Nossa Senhora da Esperança. É algo conhecido também, mas deve ser estranho. – disse Deise.
- Eu gosto muito. Acho que preciso da disciplina das aulas – respondeu a irmã.
Ela dirigiu pelo estacionamento com precisão calculada. Enfiados na aba do protetor solar estavam o tíquete do estacionamento rotativo e três moedas de 1 real. Deise notou que ela ainda contava o troco.
- E a casa, gosta dela?
- O aluguel é razoável e fica a apenas 15 minutos de carro da escola.
Deise conteve um suspiro. Poderia Daiane algum dia sentir algo intensamente?
- Está saindo com alguém?
- Não. – Daiane deu um sorriso enquanto pegava a via expressa. – Não estou interessada em sexo.
Deise ergueu a sobrancelha.
- Todo mundo está interessado em sexo. Por que acha que Jackie Collins sempre entra na lista dos livros mais vendidos? De qualquer modo, eu me referia a um companheiro.
- Não tem ninguém com quem eu queira estar no momento. – Então pôs a mão em cima da de Deise, o que era mais do que já tivera condições de dar a alguém, além do marido e do filho. –  A não ser você. Estou feliz por ter vindo!
Como sempre, Deise reagia ao afeto quando o recebia.
- Teria vindo mais cedo se você tivesse permitido...
- Você estava no meio de uma turnê de divulgação do seu livro.
- As turnês podem ser canceladas – respondeu Deise, impaciente.
Nunca se considerou temperamental nem arrogante, mas teria se comportado dessa forma se fosse para atender a um pedido da irmã. – Bem, a turnê terminou e estou aqui. Em Boa Vista, na primavera. – Abriu a janela, embora o vento de abril ainda soprasse com a intensidade de março. – E as cerejeiras em flor?
- Foram atingidas pela última chuva.
- Nada muda por aqui.
Tinham tão pouco a dizer uma à outra? Deise deixou o rádio preencher o silêncio enquanto seguiam. Como era possível duas pessoas que cresceram juntas e conviveram por tanto tempo se sentirem duas estranhas? Toda vez ela alimentava a esperança de que seria diferente. Toda vez era a mesma coisa.
Lembrou-se do quarto em que ela e Daiane haviam dividido na infância. Arrumado e organizado de um lado, revirado e bagunçado do outro.  Esse era o estilo de Daiane.
A única coisa que surpreendeu foi a rua que escolhera para morar. Um bairro decadente, um tanto precário, de grandes árvores e residências antigas.
A casa dela era uma das menores da quadra e, embora Deise tivesse certeza de que a irmã nada fizera ao pequeno jardim além de podá-lo, alguns bulbos abriam caminho pela alameda varrida com todo capricho. [...]

27 de abr de 2013

Virtudes e Indecências - Parte 2

[...]


Quando o avião chegou ao portão, Deise esperou todos os passageiros apressados tomarem o corredor. Sabia que Daiane provavelmente estaria andando de um lado para o outro, certa de que a irmã distraída perdera de novo um vôo, mas precisava de um minuto. Queria lembrar o amor, não as brigas das duas.
Como previra Deise, a irmã esperava no portão. Observava os passageiros saírem em fila e parecia estar impaciente. Sabia que Deise sempre viajava na primeira classe, mas não se encontrava entre as primeiras pessoas a saírem do avião. Nem entre as primeiras cinqüenta. Na certa, conversava com a tripulação, pensou, e tentou ignorar uma rápida pontada de inveja.
Deise nunca precisava tentar fazer amigos. As pessoas simplesmente se sentiam atraídas por ela. Dois anos após a colação de grau, a irmã bem-sucedida, que passara pela escola como por magia, vinha ascendendo na carreira. Uma vida inteira, e ela, Daiane, a aluna destacada, despendia esforços, sem resultados, na mesma escola de ensino médio em que haviam se formado. Sentava-se do outro lado da mesa agora, porém pouco mudara.
O auto-falante anunciava chegadas e partidas de aviões. Informação sobre mudança de portão e atrasos, mas ainda nada de Deise. Assim que resolveu verificar no balcão, viu a irmã cruzar o portão. A inveja desfez-se, a irritação desapareceu. Era quase impossível aborrecer-se com Deise quando se via diante dela.
Por que ela sempre parecia ter acabado de descer do carrossel? Os cabelos, do mesmo tom escuro que os seus e cortados na linha dos ombros, estavam sempre esvoaçantes ao redor do rosto. As duas tinham o corpo esguio, mas enquanto o seu parecia sempre rígido, o de Deise era flexível como um salgueiro, pronto a curva-se para qualquer lado que soprasse a brisa. Deise estava com a roupa amarrotada, um suéter batendo na altura dos quadris sobre a calça justa de malha, óculos escuros caídos no nariz, as mãos cheias de sacolas e pastas. Daiane continuava metida na saia e no blazer com quem dera todas as aulas de história naquele dia. Deise usava tênis amarelo-canário de cano alto para combinar com o suéter.
- Dai! – Tão logo viu a irmã, Deise largou tudo o que segurava sem se importar com o incomodo que causava ao fluxo de passageiros atrás dela. Abraçou-a como fazia com tudo em sua vida, com total entusiasmo. – Que bom ver você! Está esplêndida. Perfume novo. – Deu uma grande aspirada. – Gostei.
- Senhora, quer tirar suas coisas da frente?
Ainda abraçada a Daiane, ela sorriu para o atormentado empresário que estava logo atrás.
- Pode passar por cima. – E ele o fez, resmungando. – Tenha um bom vôo – disse, enquanto se voltava para irmã. – Então, como estou? Gostou do meu cabelo? Espero que sim, acabei de gastar uma fortuna em fotos de publicidade.
- Você fez escova?
Deise levou uma das mãos aos cabelos.
- Fiz.
- Combina com você – disse Daiane. – Vamos, provocaremos um tumulto aqui se você não tirar suas coisas do caminho. O que é isso? – Ergueu uma das maletas.
- MacBook. – Deise começou a juntar as sacolas. – Um notebook. Estamos tendo o mais maravilhoso dos casos.
- Achei que estivesse de férias – comentou a irmã.
Conseguiu afastar o fio cortante da voz. O notebook era mais uma evidência do sucesso de Deise. E do seu próprio fracasso.
- Estou de férias. Mas preciso me manter ocupada enquanto você estiver na escola. Se o avião se atrasasse mais dez minutos teria terminado um capitulo. – Olhou o relógio, notou que tinha parado de novo, mas não se importou. – Sério, Dai, é o mais maravilhoso assassinato.
- E a sua bagagem? – interrompeu Daiane, sabendo que a irmã ia começar a contar a história sem qualquer incentivo.
- Meu baú será entregue na sua casa amanhã.
O baú era mais uma das excentricidades da irmã.
- Deise, quando vai começar a usar malas como pessoas normais?
Quando o inferno congelar, Deise pensou em responder, mas apenas sorriu.
- Você está realmente ótima. Como se sente?
- Bem. – Então como era sua irmã, Daiane relaxou. – Estou melhor, na verdade.
- Muito melhor sem aquele filho da mãe. – disse Deise ao cruzarem as portas automáticas. – Detesto dizer isso, porque sei que você o amava, mas é verdade. – Uma forte brisa fria soprava, fazendo com que as pessoas esquecessem que era primavera. Deise seguia na direção do estacionamento, sem olhar para os lados. – Kevin foi a única verdadeira alegria que ele trouxe à sua vida. Aliás, cadê o meu sobrinho? Eu esperava que viesse com você!
A pequena pontada de dor veio e se foi. Quando Daiane tomava uma decisão sobre alguma coisa, também a tomava com o coração.
- Com o pai. Concordamos que seria melhor ele ficar com o Jonathan durante o ano letivo.
- Como assim? – Deise parou no meio da rua. Alguém buzinou com força, mas ela ignorou. – Daiane, você não pode estar falando sério. Kevin só tem 6 anos. Ele precisa ficar com você. Jonathan na certa faz o menino ver o noticiário em vez de desenho.
- A decisão já foi tomada. Concordamos que seria melhor para todos. – Deise conhecia essa expressão. Significava que Daiane se fechara e não se abriria de novo até se sentir mais segura.
- Tudo bem. – Acompanhou os passos da irmã enquanto atravessavam o estacionamento. Automaticamente, alterou o ritmo. Daiane sempre se apressava. – Sabe que pode falar comigo quando quiser.
- Eu sei. – A irmã parou ao lado do Toyota de segunda mão.
Um ano antes dirigia uma Mercedes. Mas isso fora o mínimo que perdera. – Não tive intenção de ser ríspida com você, Deise. Só não quero falar disso por algum tempo. Minha vida já está quase toda em ordem. – Deise acomodou as sacolas na parte de trás e nada disse. Sabia que o carro era de segunda mão e bem abaixo do que a irmã se habituara, porém a rispidez na voz a preocupava muito mais que a mudança de status dela. Queria reconfortá-la, mas sabia que Daiane considerava compaixão algo próximo do sentimento de pena [...]

26 de abr de 2013

Virtudes e Indecências - Parte 1

1
O avião sobrevoava levemente inclinado. Deise abriu a pasta que estava no seu colo. Precisava guardar uma dezena de coisas, mas não conseguia parar de contemplar a paisagem da janela. Nada para ela se comparava a voar.
O vôo estava atrasado. Sabia disso porque o homem da outra fileira, na poltrona 3B, não parava de reclamar. Sentiu-se tentada a estender o braço até o outro lado do corredor e dar-lhe um tapinha na mão, tranquilizá-lo, dizer que dez minutos afinal não importavam tanto. Mas não parecia que ele ia apreciar seu gesto.
Daiane também reclamaria, pensou. Mas não em voz alta. Deu um sorriso e recostou-se para o pouso. Talvez ela também ficasse irritada como o ocupante da 3B, mas não seria mal-educada a ponto de resmungar e afligir-se.
Se conhecia a irmã, e na verdade conhecia, Daiane teria saído de casa com mais de uma hora de antecedência, por levar em consideração a imprevisibilidade do tráfego da cidade. Percebera o tom irritado na voz da irmã porque Deise escolhera um vôo que chegava às 18h30, o pico da hora do rush. Com vinte minutos de sobra, Daiane pararia o carro no estacionamento rotativo, fecharia as janelas, trancaria as portas e seguiria em frente, sem ser tentada pelas lojas, até o portão. Jamais erraria o caminho nem misturaria os números em mente.
Daiane era sempre pontual. Deise, sempre atrasada. Nenhuma novidade.
Mesmo assim, desejava, desejava realmente que pudesse haver alguma afinidade entre as duas. Apesar de serem irmãs, raras vezes se entendiam.
O avião aterrissou com um sacolejo, e Deise começou a jogar tudo que tinha nas mãos dentro da pasta. Batom embolado com fósforos, canetas com pinça. Outra coisa que uma mulher organizada como Daiane jamais entenderia. Havia lugar para tudo. Ela até concordava com este principio, mas seu lugar parecia estar em constante mutação.
Mais de uma vez perguntara-se como podiam ser irmãs. Era descuidada, avoada e bem sucedida; Daiane, organizada, prática e batalhadora. No entanto, nasceram dos mesmos pais, foram criadas na mesma pequena casa de tijolos aparentes e freqüentaram a mesma escola.
As professoras jamais conseguiram ensinar-lhe como organizar uma agenda, mas mesmo no sétimo ano do ensino fundamental já ficavam fascinados com seu talento para compor histórias [...]