13 de fev de 2013

O pesadelo de um escritor – Quando a ficção se torna realidade. ParteIII


O padre João Bastista veio visitar o apartamento. Benzeu os cômodos, roupas e o casal.
— Padre, minha companheira está sendo possuída – disse Henrique Pedreira.
— Não vejo sinais de possessão.
— Ontem eu acordei flutuando sobre a cama – revelou Luísa.
— Eu sou testemunha – corroborou o escritor.
— Levitação é algo surpreendente – disse padre João Batista franzindo o rosto em preocupação – é algo surpreendente e algo muito grave. Mesmo assim preciso de mais evidências.
— Eu ando escutando coisas – disse Luísa – a campainha toca, o chuveiro liga sozinho, eu ouço vozes quando estou sozinha aqui, o fogo do fogão de uma hora para a outra chega até no teto. Estou sofrendo padre, preciso que me ajude.
— Lamento irmã – se desculpou o padre João Batista – nada dessas coisas são evidências válidas para que a diocese autorize o exorcismo.
— E o que seriam evidências válidas? – perguntou Augusto Pedreira.
— Pra começar você deve falar línguas que nunca aprendeu. Segundo: você deve falar de pessoas que nunca conheceu. Terceiro: você deve saber de segredos dos outros os quais nunca lhe foram revelados. Quarto: você precisa apresentar uma força física que seja descomunal para seu porte. Essas são as quatro evidências básicas. Quando chegar nesse estágio pode vir me procurar.
Padre João Batista se despediu e foi embora. Augusto Pedreira com uma cara de preocupação falou:
— Que estranho, tudo o que padre falou foi exatamente o que eu escrevi no meu livro. Letra por letra.
— E agora, o que vai acontecer comigo? Até a igreja me deu as costas – falou Luísa com aflição – estou com muito medo.
— Calma meu amorzinho – agradou Augusto Pedreira dando um abraço em sua companheira – eu estou aqui. Tudo vai ficar bem.
Mas o escritor sabia que nada ia ficar bem. No seu livro, a esposa possuída mata o seu marido a golpes de facadas. E ele não queria ser morto a facadas e depois jogado da sacada do seu apartamento.
Por horas Augusto pensou no que fazer. O tempo era seu inimigo. A noite chegaria e talvez Luísa pudesse não resistir. Escondido ele saiu do apartamento e foi até a sua vizinha Salete em busca de ajuda.
— O que se passa? – perguntou a vizinha atendendo a porta – parece um tanto assustado.
— E se estou, preciso de sua ajuda.
— Como sempre.
— Dessa vez é questão de vida ou morte.
— Pode entrar.
Augusto entrou no apartamento de Salete. Como sempre achou nojento aquele cheiro de incenso. Sentou-se no sofá de couro vermelho e contemplou as pinturas de animais que decoravam a parede.
Salete, despojadamente vestida em seu hobby de cetim preto, sentou-se em uma poltrona e provocadora cruzou as pernas exibindo parte de suas coxas.
— Diga o que tanto lhe aflige – pediu Salete.
— Minha mulher, ou melhor dizendo, minha companheira Luísa, acho que ela está sendo possuída.
— Possuída?
— Sim, possuída.
— Possuída por quem?
— Por ele.
— Ele quem?
— Você sabe, ele.
— Quem?
— Aquele que tem na cabeça – respondeu Augusto Pedreira fazendo chifrinhos em sua cabeça com os dedos.
— Ah sim, conheço – emendou Salete.
— Que bom – sorriu o escritor – o que faço para ajudá-la? Não quero que ela seja possuída. Você tem alguma poção, feitiço ou sei lá, qualquer coisa que possa me ajudar?
— Eu sei de uma simpatia que pode ser muito útil – disse Salete.
— E qual é? – perguntou Augusto afobado para galhardia da bruxa.
— Você é mesmo um individuo divertido. Nesses dias você tem pedido a minha ajuda com certa freqüência. De vez ou outra a gente quebra o galho, mas eu não sou macaco gordo pra ficar quebrando galho todo dia.
— Está bem, está bem – falou o escritor – diz quanto eu tenho que pagar que eu pago.
— O seu dinheiro não me interessa – respondeu Salete virando o rosto.
— E o que você quer?
— Faz tempo que estou precisando de um escravo.
— Escravo? Como um gigolô ou um garoto de programa?
— Não meu querido. Eu quero alguém que faça todas as minhas vontades, que realize todos os meus fetiches, tudo sem protestar.
— Olha só moça – foi dizendo Augusto rindo – você não vai me querer de escravo. Eu tenho quarenta e sete anos, sou pacato, uso sandálias com meias de algodão. Não tenho vinte anos. Não estou no pique mais. Às vezes até preciso tomar Viagra. Se você quiser eu posso autografar uns livros, posso participar de algumas reuniões de bruxaria, posso dar palestras...
— Cale-se! – mandou Salete – um escravo não serve apenas para o coito. Você vai descobrir que um escravo pode ser bem útil mesmo não usando o pênis. Então? Quer minha ajuda? Então pode tratar de aceitar os meus termos.
— Por quanto tempo eu vou ter que ser esse negócio de escravo?
— Por uma semana. Por uma semana inteira você deverá ficar aqui no meu apartamento fazendo todas as minhas vontades. E sem reclamar.
— Uma semana inteira? Mas eu tenho que dar comida para meu canarinho todo dia de manhã.
— Não dou a mínima para seu canarinho idiota. Vai aceitar ou não?
— Está bem – decidiu Pedreira se levantando – eu aceito. Agora me fale da simpatia.
— Claro, com muito prazer. Primeiro deve beijar meu pé – disse a bruxa erguendo o seu pé para Augusto.

[aliis]

Augusto Pedreira foi andando pelo corredor enquanto limpava o gosto acre da sua boca. Ele estava em maus lençóis. Pelo menos ia conseguir salvar Luísa da possessão.
Quando entrou em seu apartamento, deparou-se com uma escuridão terrível. Ligou a luz.
— Luísa! – chamou ele.
Augusto caminhou até a área de serviço. Do armário pegou um espanador de pó. Agora só precisava encontrar Luísa, passar o espanador em seu rosto e dizer as palavras mágicas: revertetur ad esse tenebris powder.
O escritor foi para o quarto. Entrou e acendeu a luz. Não achou Luísa. Nem no banheiro ela estava. Na cozinha ele encontrou um mau agouro. Havia facas jogadas pelo chão.
Com cuidado, ele começou a procurar por cada canto do apartamento. Olhou debaixo da cama, dentro do guarda-roupa e atrás das portas.
— Onde será que ela pode ter ido? – se perguntou o escritor coçando a cabeça. No alto da parede, bem no canto perto do teto estava Luísa como uma aranha. Em sua mão segurava uma faca. Augusto Pedreira estava de costas para Luísa e não teve como reagir quando ela pulou sobre si. Os dois caíram em cima da cama desastradamente. Luísa balançou a faca no ar e atacou o escritor. Ele foi rápido em desviar, mas a lamina raspou em seu braço fazendo uma tira de sangue. O espanador de pó ainda estava em sua mão, mirou no rosto da Luísa, que agora tinha a face toda enrugada com olhos brancos e espanou as penas bem em cima do nariz da mulher possuída dizendo alto: “revertetur ad esse tenebris powder”.
Subitamente Luísa se contorceu toda enquanto gritava palavras em outra língua. Seus olhos começaram a girar nas órbitas e de sua boca escancarada descia uma saliva verde. Ela deu um último grito e desabou como pedra em cima de Augusto.
Quando Luísa voltou a si estava ardendo em febre.
— Vou pegar um remédio para você – disse Pedreira beijando a testa da companheira.
— Você está com o braço cortado – falou Luísa vendo o sangue descendo pelo braço dele.
— Só foi um pequeno corte. Por pouco você me mata.
— O que você fez? Como conseguiu me salvar?
— Eu consultei alguns livros – mentiu o escritor.
— Pode ficar tranqüilo que eu vou recompensá-lo, vou passar uma semana inteirinha fazendo suas vontades, vou ser a sua escrava – falou Luísa beijando a orelha de Augusto Pedreira.
Isso fez o escritor lembrar que seu pesadelo ainda estava por começar na casa da vizinha.