12 de fev de 2013

O pesadelo de um escritor - Quando a ficção se torna realidade. ParteII


De tarde, Augusto Pedreira saiu para ir beber cervejas e conversar sobre partidas de futebol com seu grupo de amigos. Luísa ficou sozinha no apartamento. Era por volta das seis da tarde quando ela estava no escritório lustrando a mobília e ouviu a campainha tocar. Quando abriu a porta não havia ninguém. Isso aconteceu por mais duas vezes. Irritada e sem paciência, Luísa permaneceu por um bom tempo espiando no olho mágico. O estranho foi ouvir a campainha tocar e não ver ninguém pelo olho mágico. Luísa abriu a porta rapidamente. Não viu ninguém pelo corredor. Ninguém seria tão rápido de tocar a campainha e se esconder. E não havia onde se esconder, aquele era um pequeno corredor de edifício. O jeito que Luísa encontrou foi deixar a porta aberta. Mesmo assim a campainha tocou.
- Vai ver é apenas um defeito de fiação – se tranquilizou Luísa – acho melhor desligar.
A chave que desligava a campainha ficava na caixa geral. Para surpresa da mulher, a chave da campainha já estava desligada. Ela não sabia o que pensar daquela chave desligada, pois aquela chave deveria estar ligada. Como a campainha poderia tocar se estava desligada? Em hipótese alguma aquela campainha deveria ter tocado. Como? Se a chave estava desligada. Se estivesse ligada poderia ter sido um problema da fiação, mas a chave estava desligada.
— Preciso de uma dose. Uma boa dose de conhaque. É disso do que preciso – falou Luísa indo para cozinha.
Por volta das oito, ela dormia tranquilamente.
— Luísa! Luísa! – ela acordou com a voz de Augusto Pedreira a chamando. A porta do banheiro estava aberta e ela ouviu o som do chuveiro.
Entrou pensando que seu companheiro estivesse tomando banho. Quando abriu a cortina deparou-se com o chuveiro ligado sozinho. Aquele chuveiro não poderia ter ligado. E aquela voz que ouviu? De quem seria?
Escutou a porta da sala sendo aberta. Augusto Pedreira veio andando pelo corredor e encontrou Luísa com uma cara de espanto.
— O que aconteceu? – perguntou ele.
— Tem coisas estranhas acontecendo nessa casa – disse ela.
— Fala da TV a cabo?
— Falo de coisas que não podem acontecer. Como a campainha que toca quando está desligada. Como o chuveiro que liga sem ter ninguém no banheiro, como o fogo que se acende sozinho...
— Que estranho – disse o escritor pensativo – tudo isso que me diz acontece exatamente no meu livro de terror. Quer dizer que não foi você que quebrou os pratos na cozinha?
— Eu disse pra você que não tinha sido eu – protestou Luísa.
— Não pode ser, não pode ser – repetiu Augusto achando graça da situação – nada disso que me disse pode ser verdade. Isso é loucura.
— Não é loucura nenhuma, tudo está acontecendo. Eu juro que tudo isso está acontecendo de verdade.
— Vamos dormir, amanhã será outro dia e quem sabe deixaremos de falar coisas estranhas uns para os outros – cativou o escritor passando os dedos no rosto de sua adorável companheira – venha para a cama.
Enquanto roncava de barriga para cima, Luísa começou a levitar lentamente. Ela foi subindo, subindo, desvencilhando de seu lençol e vencendo a gravidade. Quando já estava na altura de alcançar o teto, a mulher acordou.
— Socorro Augusto! Socorro Augusto! – gritou Luísa querendo acordar seu companheiro.
Quando Augusto Pedreira acordou e viu Luísa levitando tomou um grande susto.
— Ande homem, faça alguma coisa! – pediu ela.
— Fazer o que? O que eu posso fazer? – perguntou o escritor desesperado andando de um lado para o outro do quarto.
— Me ajude a descer!
— Mas o que você está fazendo aí em cima mulher?
— Eu não sei, parece que alguém está me levantando.
— Não tem ninguém levantando você. Isso deve ser um pesadelo. Só pode. Eu vou me sentar aqui e daqui a pouco vou acordar. Só tenho que esperar.
Augusto Pedreira sentou-se na cadeira e ficou olhando para Luísa flutuando.
— Você não vai fazer nada? – perguntou ela desesperada.
— Estou no meio de um pesadelo, o que quer que eu faça?
— Faça logo alguma coisa homem velho – irritou-se ela.
— Vou fazer o que meu personagem fez no livro. Vou rezar – respondeu o escritor. Ele então se ajoelhou, abaixou a cabeça e rezou. Enquanto rezava, Luísa foi descendo vagamente.
— Por santo Deus, o que está acontecendo comigo? Estou com muito medo – falou Luísa abraçando seu companheiro.
— No meu livro, a mulher começa a ser possuída pelo demônio quando isso acontece.
— Sério?
— Sim, depois que o marido a vê levitando, coisas ruins começam acontecer.
— E o que faremos?
— Vamos chamar o vigário. Ele quem sabe poderá realizar o exorcismo.
— Isso não parece nada bom.
— Confie em mim. Você ficará bem.
— Eu vou ter aquele lance de girar a cabeça para trás?
— Não, isso não vai acontecer.  – quando tudo se acalmou, pensativos, cansados, foram dormir.