11 de fev de 2013

O pesadelo de um escritor - Quando a ficção se torna realidade. Parte I


A bruxa Salete apesar de ser uma bruxa má, não deixava de ser uma boa leitora. Em seu apartamento iluminado por velas ela passava horas lendo romances de terror. Pela internet ela comprou um atraente título chamado “A espera de um diabo”.
Como de costume, Salete primeiramente tomou um belo banho numa banheira com água fria. Ensaboou seu lindo corpo esbelto, ouvia através de um toca fita antigos rituais para nunca envelhecer. Para completar ela bebia sangue de cabra virgem.
Após seu banho de rejuvenescimento, Salete deitou-se em sua poltrona vermelha de couro com seu livro no colo. Começou a leitura e só parou dez horas depois ao ler a palavra “Fim”.
- Boa história! – exclamou Salete fechando o livro. O romance tratava-se de um homem que se muda para uma nova casa junto de sua esposa e três filhas. No decorrer dos anos a esposa passa a ser atormentada por estranhas atividades paranormais. Atividades estranhas como: luzes que se acedem sozinhas durante a noite, o chuveiro que liga sozinho no andar de cima, barulhos de passos pela casa quando não há ninguém, som de arranhões vindo da parede, copos que se quebram e coisas do gênero. A esposa se desespera de tanto ver coisas anormais. Então um padre é chamado para resolver esses problemas. O padre crê que a casa é habitada por um terrível demônio que quer possuir a esposa. Porém o padre não pode realizar o exorcismo sem autorização da diocese. E para que a diocese autorize o exorcismo é preciso uma soma de fatos concretos sobre a presença do demônio. Com essa resolução, o demônio acaba por possuir a esposa. No final ela mata o seu marido e as crianças. Um fim que agradou Salete. Só que ela ficou mais alegre quando viu o nome do autor: Augusto Pedreira. O escritor era vizinho de Salete e os dois tinham uma boa relação de vizinhança. Salete imaginou como Augusto Pedreira se comportaria se aquilo que escreveu virasse realidade. Ela imaginou como seria se a ficção se tornasse real para seu autor. Ela jogou o livro em sua lareira e pronunciou algumas palavras em latim. O fogo queimou as paginas instantaneamente uma por uma.




Como sempre, Luísa (esposa de Augusto) acordou primeiro que Augusto Pedreira. O escritor costumava dormir até às onze da manhã. Na cozinha ela achou os armários com todas as portas abertas. Pensou que deveria ter sido Augusto Pedreira. Talvez ele tivesse acordado no meio da noite e procurado por alguma coisa. Da geladeira tirou uma caixa de ovos. Riscou o fósforo e ligou o registro do bocal do fogão. Ao colocar a cabeça do fósforo em chamas perto do bocal, uma grande labareda de fogo subiu até o teto. Rapidamente Luísa desligou o registro. Com medo desistiu de fazer sua omelete. Foi para sala assistir TV. Nenhum canal pegava, só ficava aquele chamuscado cinzento.
- Meu Deus! – exclamou Luísa de pé em frente ao televisor enquanto ia passando pelos 180 canais da antena como controle remoto – não tem nenhum que preste.
Cansada daquele barulho grudento, Luísa desligou a TV. Sentou-se no sofá e ficou em silêncio. Ela escutou o som de um prato caindo no chão. Depois outro. E depois parecia que um armário inteiro de louças havia caído no chão. Luísa permaneceu em silêncio, bem quietinha no sofá, com os olhos fixos na porta da cozinha.
Augusto Pedreira passou pelo corredor indo para cozinha.
- Santo Deus! – gritou o escritor – mas que diabos aconteceu aqui? – Ele entrou na sala com a cara de poucos amigos.
- Porque quebrou os pratos? Tá a maior zona lá na cozinha! O que deu em você? Tá ficando biruta depois de velha? Credo mulher.
Luísa mostrou o controle remoto para seu companheiro.
- Nenhum canal da TV pega.
- Como assim nenhum canal pega nesta TV? – falou Augusto Pedreira tomando o controle remoto de Luísa. Quando ele ligou a TV, todos os canais estavam pegando normalmente.
- Não vai fazer o café? – perguntou ele irritado.
- Não posso.
- Está bem, eu faço. Vou limpar a bagunça, vou fritas ovos, colocar manteiga na mesa. Vou fazer tudo isso. E você pode ficar aí assistindo TV. Eu não ligo.

Augusto Pedreira foi para a cozinha preparar o seu desjejum. Luísa permaneceu no sofá assistindo um canal sobre cachorros. Pra ela era fácil fazer tudo aquilo.