26 de fev de 2013

O Mensageiro da Morte!




       Aconteceu quase como uma sorte. Uma dessas que ocorre às avessas e que nos atinge sem os termos pretendido. Vivia naquela besta existência, tão pertinente aos mansos dias do interior, Joaquim Castanhal, cuidando do seu quintal, do seu trabalho de molhar carimbos na repartição estadual, dando sempre um beijo morno na esposa ao sair e recebendo outro ao voltar, quando observou aquele cão sarnento, do outro lado da rua, naquele fim de tarde prolongado, lambendo os pés do meu vizinho de frente, Francisco Torquato.
      Teria passado despercebido, se não soubesse que Francisco odiava os cães não permitindo que dele se aproximassem. Teria o expulsado, se o tivesse sabido, mas a questão é que, apesar de ter sido cheirado, e de terem seus pés repousados sobre o chinelo molhados, o vizinho não se deu conta do animal.
     Virou açoitando tantos outros por menos conta, que não pôde deixar de inquietar-se com a visão daquele novo assombro. Curioso, largou a enxada e, a pretexto de uma prosa sem temor, foi ter com o mesmo.Trocamos um “Boa tarde”. Dando voltas, logo interrogou sobre o animal:
            - E aquele cão, Seu Francisco, de quem era?
    Espantado, pela pergunta tão sem pontualidade, baixou um ríspido olhar carregando o falar de uma cólera não disfarçada.
            - Que cão? Sou lá homem de gostar de cachorro?
    Desconcertado, sem saber onde por a vergonha, ainda deu de forçar uma confirmação:
            - Aquele que acabou de lhe lamber os pés...
            - Endoidou homem? Que eu não deixo cachorro nenhum chegar perto!...
      E saiu para dentro de sua morada ficando chateado com a inquisição nada santa de Joaquim. Mais desconcertado ficou. Não eram bons amigos, no máximo vizinhos que se toleravam sem os achegos de cordialidade exacerbada e o que não era doce, precipitou-se ao amargo. Joaquim foi para casa e deitou-se com a impressão ruim, querendo pedir desculpas no dia seguinte sendo que lhe levaria umas hortaliças para remediar sua intromissão despudorada.
      Dormiu mais sossegado. No entanto, ao quebrar do dia, ficou sabendo pelo choro extravagante da mulher que Seu Francisco bateu nas Portas do Paraíso ainda naquela madrugada poupando-se de dar-lhe a hortaliça.
      Joaquim ficou na intriga e, o assunto teria sido esquecido caso, no dia seguinte, não visse novamente o cão atravessando uma rua. Segui-o à distância, para não espantá-lo. Viu que foi ao bar e, do mesmo modo, lambeu os pés de um bêbado conhecido na região, Seu Tetéu. Deixou estar e ficou de sobreaviso. Procurou seguir o cão, porém sumiu nas sombras de uma rua.
            - Deve ter-se metido por algum buraco no muro. – Pensou.
     Não foi sem surpresa, quando no dia seguinte, Joaquim ficou sabendo da morte do coitado Tetéu. Não gostou daquela novidade e, a partir daquele dia, o terror de Joaquim foi procurar o cachorro querendo vê-lo longe de si o máximo que pudesse. Sabe-se, entretanto, que ninguém foge às teias do destino. Certo dia, ao sair de casa, olhou para a rua de cima e vi o cachorro vindo em sua direção com a boca aberta e babando. Olhava-o diretamente nos seus olhos. Joaquim deitou-se a andar acelerado rua abaixo vigiando-o de longe. Quebrou por uma esquina e correu o quanto pude. Parou na próxima dobra de um quarteirão. O cachorro, como se tivesse um faro de outro mundo, veio correndo acelerado.
     Joaquim deixou de lado aquela intriga de querer adivinhar o que pensariam dele ao ver correndo e acelerou para a repartição. Parou na porta e viu que o cachorro se partia naquele rumo. Correu para seu gabinete em desespero ordenando ao funcionário do atendimento que não queria ver ninguém.
     Permitiu que sua porta ficasse entreaberta. O animalzinho entrou, lambeu os pés do atendente, após cheirá-lo e partiu. Quando Joaquim se sentiu seguro, perguntou-lhe ao funcionário:
            - Viu aquele cãozinho?
      O funcionário olhou sem entender perguntando do que estava falando. Compreendeu Joaquim, então, qual seria a sua sina e não ficou surpreso ao saber que meu colega de serviço morrera ao voltar para casa, vitimado por um desafeto que lhe cobrara uma pesada dívida de jogo.
       Não eive mais nenhum dia de paz. Ficou, nos anos seguintes, a vigiar a presença daquele sinistro animal. Tantas vezes o viu passar, para lá e para cá, que mal seu deu conta de cuidar de ser feliz e o tempo correu. Comprou uma arma e, caso se aproximasse, estaria disposto a liquidá-lo sem pena.
        O tempo correu e foi testemunhando a veracidade daquele visitante do infortúnio. Certa tarde, quando mantinha guarda na varanda, foi acordado por sua esposa:
            - Vem para dentro que faz frio.
        Velho e quebrado, levantou-se lentamente da cadeira de balanço. Antes de entrar, ela se voltou perguntando:
            - Que cachorro sarnento era aquele que te cheirou e lambeu os pés?
        Engoliu em seco. Sabia do que se esperava, mas não se encontrava pronto. Afinal, passou tanto em vigília, no intento de escapar da morte, que me esqueci de saborear o melhor da vida...