6 de fev de 2013

Entrevista com o palhaço demônio



"Os loucos são os certos numa sociedade errada."

 O alarme do banho de sol havia soado estridente quando entrou na sala de convivência, um lugar que, dentre poucas qualidades, restavam paredes sem acabamento, de um cimento cru, com azulejos mal colocados no chão. Minutos antes havia conversado com o diretor do complexo penitenciário, apresentando-se como o psiquiatra oficial do Estado e pedindo para poder falar com o senhor Vicente Caver, um dos presos apelidado de "palhaço" pelos agentes.
- Por que palhaço? - perguntou ao agente que estava de guarda na soleira da porta de entrada da sala, enquanto sentava numa das cadeiras levemente acolchoadas que se encaixavam numa mesa redonda.
 - O doutor verá, ele já chegou. - Concluiu o agente.
     Entrou na sala um homem mal cuidado, de macacão vermelho com a numeração 066 branca estampada no peito, cabisbaixo, de um olhar sem vida, cabelos compridos até o ombro, barba desgrenhada que crescia para todo lado, olhos manchados de lápis de maquiagem, bochechas pintadas de vermelho com um blush vagabundo, e batom preto nos lábios, igualmente manchados.
     - Não sabia que deixavam entrar maquiagem por aqui. - Iniciou o diálogo cordialmente.
     - Fazem tudo por um maço de cigarros dentro dessas paredes. - Respondeu com sua voz grossa e rouca, olhos mirados no chão.
     - Eu sou o doutor Alfredo, psiquiatra oficial do Estado. Estou aqui para fazer uma entrevista com o senhor, como parte de um estudo sobre as mentes. Caso o senhor concorde, o seu voluntariado contará pontos de bom comportamento.
     - Público, público, público... - resmungou.
     - Perdão?
     - Eu não quero os pontos. Aceito participar da brincadeira. - Disse cruzando-lhe um olhar nefasto.
     - Não é uma brincadeira, mas tudo bem, o senhor está de boa vontade. - Retirou do bolso um celular tablet pronto para gravar. - Podemos começar? - O palhaço fez que sim com a cabeça.
     - Vamos a mais primordial das perguntas, - hesitou por alguns instantes - por que o senhor matou oito crianças?
- Ainda mato.
     - Mas na prisão não há crianças.
     - Mas eu mato. - Disse dando uma risada abafada e cortante.
     - Então por que ainda as mata? - O palhaço fez que não ouviu, virando a cabeça para o celular.
     - Troço bacana, parece ter sido caro.
     - Por favor, vamos nos ater à pergunta.
     - Mas eu estou respondendo, doutor funcionário público engomadinho. - O agente penitenciário olhou para o psiquiatra como quem queria fazer algo, mas foi acalmado pelos olhos apaziguadores do doutor.
     - Perdoe-me a interrupção, prossiga com a resposta.
     - Já respondi, encerramos.
     - Olha, Vicente...
     - Eu me chamo Ceifador! - Disse com a voz grave, de forma amena, num tom obscuro quase palpável.
     - Ceifador, - engoliu em seco - eu quero entender o que você vê.
     - Eu vejo... - fez uma pequena pausa mirando os olhos novamente para o chão -.... Ratos.
     - E quem são esses ratos?
     - São eles. - Apontou para dois ratinhos que saíam de um buraco na parede, e soltou uma gargalhada honesta e estridente. O agente penitenciário se aproximou, agarrou-o pelos cabelos e disse "eu não vou tolerar suas gracinhas na frente do doutor, certo? Então responda às suas perguntas se não quiser ir para o castigo mais tarde!". O palhaço estendeu as duas mãos em sinal de conformidade.
     - Olha, vamos evitar esses choques tá bom? Não é para ser doloroso para ninguém aqui. - Tentou conforta-lo Alfredo.
     - Dor? O que o senhor sabe sobre dor?
     - Pretendo saber um pouco mais depois da nossa conversa.
     - Vai saber, pode apostar. - Deu uma piscada com o olho direito.
     - E por que matar? Por que crianças?
     - Vocês nunca vão entender, não é mesmo? Eu não sou o vilão por aqui! Vocês é que são, porcos malditos! - Gritou batendo com as duas mãos sobre a mesa. O agente penitenciário bruscamente se aproximou batendo com seu cassetete nas mãos do homem maltrapilho que se abaixou de dor, embora sorrindo nervoso. Mais um golpe seria desferido não fosse os apelos do psiquiatra para que o deixasse em seus devaneios e delírios.
     - Vamos, por que somos nós os vilões?
     - Por quê? - Rebateu ironicamente ainda abaixado - Você ainda tem a cara de pau de me perguntar?
     - Eu honestamente não consigo me ver como um vilão. Tenho minhas falhas, mas tento mais acertar do que errar.
     - E quantos litros de leite custaram esse seu celular hein? Eu não matei aquelas crianças por prazer! Eu as salvei desse sistema cruel criado por pessoas como o senhor, doutor contribuinte! Eram crianças de rua!
     - E a morte é a solução?
     - A morte é um presente para quem vai ser eternamente torturado doutor. Essas crianças teriam uma vida de sofrimentos e humilhações incalculáveis. Mas é claro que do apartamento do senhor é impossível enxergar. E fácil de se sentir herói, diga-se.
     - Eu tenho tudo o que preciso. - Disse Alfredo, levantando-se ofendido.
     - Eu também.
     - Perdão?
     - Eu salvei o seu filho de se tornar o monstro que o senhor se tornou!

"MANCHETE; FILHO DE PSIQUIATRA RENOMADO É ENCONTRADO MORTO EM LATA DE LIXO EM FRENTE A SUA CASA E VICENTE CAVER, O MANÍACO DAS CRIANÇAS, SE MATA EM PRISÃO!”