26 de dez de 2012

Um Cadáver ouve rádio - Parte 7

Um chinês tocador de sanfona?
Yuri encontrou o primo folheando os jornais do dia, nervosamente.
- Como eu imaginava! Apenas algumas linhas sobre o assassinato de Boa-Vida. Se fosse rico o caso mereceria meia página...
- Melhor assim - replicou Yuri. - Não assustará o criminoso.
Nina entrou na sala com um espanador.
- Foram ao cemitério, Yuri? 
- Voltamos agora. Como enterro de indigente até que não foi mau. Havia um padre e algumas pessoas do bairro. Mamãe levou flores.
- Não pude ir - lamentou a tia. - Mas orei por ele.
Yuri passou a Francisco o cartão de Dalyana.
- Havia uma pessoa desconhecida para nós no enterro. Já ouviu falar dela? 
Nina também foi ler o cartão. Não sabiam quem era Dalyana.
- Alguma amiga de Boa-Vida?
- Vocês não adivinhariam nem amanhã - disse Yuri, dono do seu mistério.
- Tem o nome dele, Souza - observou Francisco. -  Só pode ser parente.
Sabendo do espanto que ia causar, Yuri sorriu.
- Mulher de Alexandre. Boa-Vida era casado embora vivesse separado da mulher. Jamais teríamos notícia disso se ela não aparecesse no cemitério. Derramou um rio de lágrimas. Mas quando a abordamos não quis muito papo. Mamãe não simpatizou nada com essa tal de Dalyana.
Francisco e Nina ficaram surpresos: Boa-Vida, casado!
- Como soube que o marido morreu?
- Pelo rádio.
- O que ela disse? Desconfia de alguém?
Yuri sacudiu a cabeça, negando.
- Raramente via Alexandre. Disse que não poderá ajudar.
A informação, apesar do impacto, não somava novos esclarecimentos ao assassinato, mas, Francisco, zeloso, juntou o cartão de Dalyana à fotografia de Boa-Vida e ao folheto turístico encontrado na obra. Um pouco de organização não faz mal a ninguém.
_ Evidentemente vamos entrevistar esta senhora - disse Francisco - mas devemos nos concentrar no ladrão da sanfona. Por que complicar as coisas? Só pode ter sido ele! Eram muito amigos, Yuri. Tinham marcado encontro na obra. O legista concluiu que o crime foi às dezoito horas de domingo. Tomaram café, fumaram cigarros, de marcas diferentes, e depois o visitante, para roubar a sanfona, matou Boa-Vida pelas costas.
- Com a arma chinesa?
- Isso mesmo!
Yuri começou a rir e acabou gargalhando a ponto de irritar o primo.
- Boa piada, Francisco!
- Mas onde está a graça? Quer me dizer?
A graça estava aí:
- Como pode imaginar um chinês tão fanático por xaxados, xotes e baiões a ponto de cometer um crime para surrupiar um sanfona velha? Já viram um china, com gibão e chapéu de couro, animando um forró? Eu nunca vi. Zero para você, senhor detetive.
Francisco continuava nervoso.
- Quer esquecer a arma do crime um minuto, por favor? 
- Não consigo. O crime foi de sabre chinês, não de peixeira. Isso não dá pra pôr de lado.
Nina, sem largar o espanador, até sentou-se para ouvir a animada discussão dos dois primos.
Francisco estava com a palavra:
- Então um russo só mata a golpes de balalaica, uma espanhol necessariamente precisa usar bandarilhas e um italiano pau de amassar macarrão? O criminoso na maioria das vezes apanha a arma que pinta na ocasião. Ele poderia ter roubado essa arma estranha justamente para confundir a polícia.
Yuri não se deu por vencido:
- Então vamos sair por ai, procurando entre milhões de sanfonas, uma que tenha duas letras minúsculas iniciais, feitas provavelmente a canivete? Desta vez, fico por fora. Sou um rapaz com uma brilhante vocação para detetive, não andarilho ou recenseador de sanfonas!
Nina deu uma gostosa gargalhada. Recenseador de sanfonas, ótimo chiste!
E tudo ficaria em gargalhadas, o dito pelo não dito, se não fosse a pessoa que chegou em seguida. Tocaram a campainha. Nina foi atender.
- Ah, é o senhor? Vá entrando. Francisco e Yuri estão aqui quebrando a cabeça. [...]