18 de dez de 2012

Um cadáver ouve rádio - Parte 6

No enterro alguém chora por todos
Rafael alugou um táxi e com dona Juliana e Leo foram para o distante cemitério onde, por conta da Prefeitura, Alexandre de Souza, o Boa-Vida, seria enterrado como indigente. Levavam flores e algum dinheiro para gratificar os coveiros. Ao contrário do que esperavam, outras pessoas estavam presentes no sepultamento: o dono de um bar, um garçom de restaurante, madame Santa, Dona Maria, para quem às vezes Boa-Vida entregava vestidos, o porteiro de um dos teatros do Bexiga e dois pedreiros.
Um Padre, provavelmente conhecido de madame Santa, iniciou uma oração fúnebre, logo perturbada pelo choro convulsivo e inesperado de uma mulher, vestida de preto, a última a chegar.
- Quem é ela? - perguntou Rafael à dona Juliana.
- Não sei.
- Parece pessoa da família.
- Ele nunca disse que tinha parentes - lembrou dona Juliana, tentando prestar atenção às palavras do padre.
A mulher, conservando-se um pouco afastada, com a cabeça curvada sobre o peito, apertava nos olhos um lenço comum, simples alivio de uma tensão, mas uma torrente de lágrimas, sofrida e dramática. Teve-se a impressão de que o padre, premido pela situação embaraçosa e para não prolongar o sofrimento dela, abreviou suas palavras. E enquanto os coveiros faziam seu trabalho, dirigiu-se à desconhecida para confortá-la no momento dificil.
Sepultado o corpo, a mulher interrompeu o choro, como se para isso tivesse simplesmente apertado um botão, olhou ao redor sem fixar-se em ninguém, e precipitou-se em abandonar o cemitério.
- Gostaria de saber quem ela é - disse dona Juliana, curiosa. - Vamos alcançá-la?
Com Yuri à frente, os três acompanharam a mulher de perto, que apesar do choro exaustivo, tinha ainda bastante fôlego. Apressada, parecia mover-se sobre rodas. Com receio de que a perdesse de vista, o rapaz adiantou-se, indo colocar-se ao seu lado.
- Por favor, senhora. Minha mãe quer lhe falar!
A desconhecida parou, com visível má vontade, esperando dona Juliana e seu Rafael. Teria pouco mais de trinta anos, era morena cor de jambo, e não muito alta. Naquele instante mostrava-se não sofrida, mas assustada.
- Eu, meu marido e meu filho fomos amigos de Alexandre - disse dona Juliana, acercando-se.
- Meu nome é Dalyana - respondeu a mulher. - Alexandre nunca lhe falou de mim?
- Dalyana? - repetiu a mãe de Yuri. - Nunca!
- Alexandre só lembrava-se dele mesmo - lamentou a mulher.
- Eram parentes? - perguntou Rafael.
- Éramos casados.
- Casados? - admirou-se dona Juliana, olhando para o marido e para o filho. - Alexandre frequentava muito nossa casa e o julgávamos solteiro. E acho que lá no bairro todos pensavam assim, não é Rafa?
- Estávamos separados há muito tempo - esclareceu Dalyana. - Raramente nos víamos. E se estou aqui foi porque casualmente ouvi a notícia no rádio.
- A senhora mora aqui mesmo? - perguntou Yuri.
- Moro, mas vim do nordeste, como Alexandre.
- Gostaria que nos desse seu endereço. A polícia e alguns amigos de Alexandre vão tentar descobrir quem o matou.
Dalyana não se interessou.
- Eu não posso ajudar. Como disse, quase não o via!
- Mesmo assim talvez a procuremos.
Dalyana abriu a bolsa, retirou dela um cartão impresso, entregou-o ao rapaz, despediu-se com poucas palavras e voltou a andar. Não estava disposta a conversar.
- Primeiro chora como uma carpideira, depois nem quer falar sobre o marido - comentou dona Juliana com nenhuma simpatia pela mulher de preto.
- Veio aqui para dar um espetáculo e ir embora - disse Rafael.
- Espetáculo para quem?
- Não sei, Ju.
- Se o Alexandre não falava dela talvez tivesse seus motivos - afirmou Juliana, cáustica.
Yuri leu em voz alta:
- " Dalyana Araújo de Souza. O PASSAREDO - pássaros e gaiolas." É no bairro da Liberdade.
Rafael pegou o cartão da mão do filho como se tivesse escutado o resumo de um romance empolgante.
- Boa-Vida era casado com a proprietária de uma loja e morava numa obra abandonada!?
Dona Juliana pensou em uma explicação e encontrou esta:
- Quem sabe ela quisesse prendê-lo demasiadamente numa dessas gaiolas e ele acabou batendo asas.
Rafael não constestou a opinião da mulher porque os muitos anos de casamento lhe haviam ensinado que ela sempre tinha razão.
- Deixem-me na casa da tia Nina - pediu Yuri, quando entraram no táxi. - Preciso falar com Francisco! [...]