28 de nov de 2012

Um cadáver ouve rádio - Parte 5

Enfim, a arma do crime
Rafael e Juliana, pais de Yuri, não se conformaram depressa com a morte de Boa-Vida. Sentiriam muito a falta de seus baiões, suas histórias e de seu acentuado sotaque nordestino. Dimitri, o caçula, perdeu até a vontade de brincar e vovô Pascoal, com seus oitenta anos, e que de música aceitava apenas canções italianas, derramou uma lágrima pelo sanfoneiro.
Dona Juliana só fazia uma restrição ao Alexandre:
- Seu defeito era ser um tanto egoísta.
- Egoísta, o Boa-Vida? - discordou Rafael. - Um homem que apenas amava sua liberdade!
- Não lembra o que disse domingo? Se ganhasse na loteria, não daria um centavo para ninguém. Gastaria tudo em viagens.
- Mas dar para quem? Era sozinho no mundo. Infeliz! Viajou para o desconhecido.
- Amanhã vamos ao enterro dele em Vila Formosa - disse dona Juliana. - O corpo já foi liberado pelo Instituto Medico Legal. Vai ser uma tristeza. Duvido que alguém apareça além de nós.
Yuri murmurou um tchau e seguiu para o Morro dos Ingleses, onde Rebecca, sua quase-namorada, morava. Não a via há muitos dias. Felizmente desta vez tinha uma boa desculpa para procurá-la. Parou no orelhão da esquina e fez uma ligação.
- Rebecca, é o Yuri. Pode descer um pouquinho?
- Hoje não. Estou lendo um livro muito bom!
- Que pena! Houve um crime aqui no bairro e eu e Francisco vamos nos mexer.
- Crime? Não estou sabendo de nada. Quem matou quem?
- O primeiro quem não sabemos. O segundo foi um tal de Alexandre de Souza, mais conhecido como Boa-Vida.
Houve uma pausa e depois a voz de Rebecca voltou alta e estridente:
- Mataram o Boa-Vida?
- Você conhecia?!
- Já estou descendo.
Um minuto depois e lá estava, à porta do edifício, a garota mais linda que Yuri já encontrou. Correu em sua direção como se tivesse acabado de ouvir a pior das noticias.
- Então mataram mesmo o Boa-Vida.
- Não imaginava que o conhecesse. Ele também andava pelo Morro?
- Sempre aparecia em casa quando precisávamos de alguém. Era quem lavava o carro do papai, sabia? Mamãe no início não lhe dava muita atenção, mas o Boa fez tantos serviços, consertou tantas coisas quebradas que a coroa acabou afinando. Não fazia nada com muita categoria. Minhas estantes, por exemplo. Ficaram uma droga. O que sabia mesmo era jogar conversa fora!
- Era um verdadeiro Boa-Vida.
- Papai não o considerava vagabundo, mas rebelde. Odiava horários e patrões. Se lhe ofereciam trabalho fixo, dava as costas.
- Seu erro foi dar as costas também para o assassino. Três furos nos pulmões!
- Alguma pista?
- Vamos até a casa do primo. Começaremos tudo apartir de um retrato.


******

Francisco recebeu Rebecca alegremente. Outra vez os três juntos! Ah, ela conhecera Alexandre? Ótimo, assim a corrente ficava mais forte. Precisariam de muita união porque o enigma era uma parada, um desafio.
- Tia Nina conseguiu a foto?
Francisco abriu a gaveta e retirou uma grande fotografia autografada e emoldurada, o Boa-Vida de gibão e chapéu de couro tocando sanfona para um grupo de fregueses do restaurante.
- Bem fiel ao que ele era, o mesmo sorriso cheio de dentes -  comentou Rebecca.
- Mas apenas serve para matar a saudade - lamentou Yuri. - Uma sanfona sem nada de especial.
Francisco reabriu a gaveta e apanhou uma lupa, que passou ao primo, sem explicação, embora ativando um sorriso muito significativo.
- Vê alguma coisa? - interessou-se a garota.
Yuri, aos poucos, fabricou um sorriso parecido com o do primo.
- Agora entendo por que o velho Sherlock Holmes nunca esquecia a lupa. Sua vez, Rebecca. Prove que sabe distinguir uma pista.
Rebecca assentou a lupa sobre a foto com uma emoção que atrapalhou tudo. Olhava, olhava e não encontrava a espoleta que disparara aqueles dois sorrisos. Desorientou-se. 
- Concentre-se na concertina. Perto dos dedos dele. Vê agora alguma coisa?
Mais um sorriso juntou-se aos dois.
- Iniciais. Um B e um V. - E depois de uma pausa: - Mas isso ajuda?
- Evidente - respondeu Francisco. - Já não é mais uma sanfona qualquer. É a sanfona do nosso Boa.
- Se os jornais fizerem alguma alusão às inicias, a descoberta não valerá muito. O criminoso se desfaz da concertina - disse Rebecca.
- Ninguém vai saber. A imprensa só dará destaque ao Muriçoca. É o único suspeito!
Yuri lembrou da arma.
- Era mesmo uma peixeira?
Guardando a foto de Boa-Vida e a lupa na gaveta, Francisco fez uma cara de quem levou um soco  no estômago.
- Este é o detalhe preparado para atrapalhar, como acontece em muitos romances policiais. Parece um quebra-cabeça, uma brincadeira!
- Que arma era?
- O doutor Arruda não lhe tinha falado dela simplesmente porque não havia sido encontrada. Estava enfiada num saco de cimento da sala. Agora preparem uma cara bastante incrédula e podem arregalar os olhos.
- Fala logo, primo!
- Uma espécie de sabre chinês, muito bonito, com desenhos orientais no cabo.
- Uma arma chinesa, você disse? - surpreendeu-se Yuri, como Francisco previra.
Em completo desalento, vendo romper o fio da meada, Francisco confirma: - Chinesa primo, dá pra entender? [...]