16 de nov de 2012

Um cadáver ouve rádio - Parte 4

Lágrimas que decidem
Já na casa do primo Francisco, que, sentado na cadeira de rodas, ouvia a tudo atentamente, Yuri mostrou o seu achado.
- Estava dentro do folheto de turismo.
- Um cartão de loteria.
- Jogava todas as semanas. Uma vez fez 12 pontos. Quase sofreu um colapso.
- Quantos pontos fez dessa vez?
- Não contei.
Tia Nina, mãe de Francisco, entrou com o café. Era uma mulher alegre, mas naquele fim de tarde não estava com boa cara, os olhos muito vermelhos. O filho acariciou-lhe o braço.
- Ela gostava muito de Boa-Vida. Aquele pau-de-arara sabia agradar as pessoas embora quase sempre por interesse.
- Não era tão interesseiro - retrucou tia Nina. - Lá na cantina, onde trabalho, tocava sanfona e cantava em troca de um simples prato de comida. Uma vez quiseram contratá-lo por três meses. Recusou. Detestava compromissos.
- Ia mesmo falar da sanfona - Lembrou Yuri. - Foi o único objeto de propriedade de Boa-Vida que desapareceu. Provavelmente mataram-no apenas para roubá-la.
- Era uma concertina caindo aos pedaços - lembrou tia Nina. - Ninguém daria nada por ela!
- O delegado acha que o assassino pode ter sido outro sanfoneiro - disse Yuri. - Um ladrão qualquer levaria também o rádio e o dinheiro.
Francisco sorriu, desanimado.
- Quantos sanfoneiros existem na cidade? Impossivel procurar entre eles o criminoso. Escrevam: a polícia vai arquivar o caso. Afinal roubaram uma concertina, não um instrumento raro, um violino Stradivarius.
A conclusão pessimista do filho fez mal à sentimental tia Nina, cujos olhos ficaram ainda mais vermelhos.
- Será que a pessoa que matou Boa-Vida vai continuar livre pelas ruas?
- Às vezes - confortou-a Francisco - dá uma sorte e a polícia pega o culpado por acaso.
Nina continuava sofrendo.
- Quando a vítima é importante todos se mexem. Qualquer pista ajuda. Os jornais falam, a televisão mostra. Mas quando o coitado não tem onde cair morto só o acaso pode fazer justiça.
Francisco e Yuri olharam Nina e depois entreolharam-se. Ela estava revoltada e triste. E fazia enorme esforço para reter uma lágrima que teimava em rolar-lhe pelo rosto. Como não tinha um lenço à mão, saiu às pressas da sala.
- Não sabia que tia Nina gostava tanto de Boa-Vida - disse Yuri.
- Eu também não! - declarou Francisco.
Fez-se um silêncio comprido e então Yuri tornou a falar.
- E ela tem razão. Quem vai se preocupar com o assassinato de um homem que morava numa obra em construção abandonada? E parece que nem nós, que o conhecíamos, estamos muito preocupados.
Nina voltou à sala. Seus olhos evidenciavam que havia chorado. Mas estava mais calma.
- O melhor que temos a fazer é esquecer - disse.
Francisco mexeu-se na cadeira.
- Quem sabe a gente possa estudar esse caso - declarou. - Embora nos falte um ponto de partida. O que acha, primo?
Yuri sorriu, era justamente o que desejava ouvir. E Nina sorriu para os dois, acrescentando para ser agradável ao sobrinho:
- E chamem também aquela mocinha bonita, a Rebecca. Ela é esperta e tem boas idéias!
- Por onde devemos começar, primo?
Francisco, ainda frio, mas para não decepcionar Nina e Yuri, pensou, fez a cadeira de rodas rodar em torno da mesa, criou certa expectativa e depois puxou o que poderia ser o fio da meada:
- Como era a sanfona de Boa-Vida? Alguma particularidade?
- Não lembro - disse Yuri.
Tia Nina queria mesmo ver o criminoso atrás das grades.
- Lá na cantina temos uma parede com fotografias dos artistas. Boa-Vida também está lá com a concertina.
- Gostaria de vê-la, mãe.
- Vou buscá-la loguinho. Era tão velha que não se parece tanto assim com as demais.
Tomada essa providência, Francisco lembrou-se de fazer uma pergunta que desde o inicio trazia na garganta.
- Que arma foi usada?
Yuri ergueu e abandonou os braços.
- Que cabeça, a minha! Estive lá, vi o sangue, falei um tempão com o doutor Arruda e esqueci disso!
- Não encuque, primo. Deve ter sido uma vulgar peixeira. E, como a velha Nina ordenou, convoque a linda Rebecca. [...]