15 de nov de 2012

Um cadáver ouve rádio - Parte 3

Quem odiaria um sanfoneiro?
O doutor Arruda aceitou a hipótese de Yuri. O rapaz tinha mesmo boa cabeça para detetive, demonstrada outras vezes. Queria, porém, mais informações sobre Alexandre. O mensageiro precisava voltar ao hotel. Prontificou-se a levá-lo em uma viatura, os dois no banco traseiro.
- Vocês papeavam muito?
- Boa-Vida falava demais. O homem mais alegre e falador que já vi. E se trazia a sanfona fazia festa sozinho.
- Não teria vendido a sanfona?
- Posso apostar que não. Seria como vender a própria alma. Graças a ela ganhava algum dinheiro nos forrós, restaurantes e festas do bairro.
- Domingo estava preocupado, diferente dos outros dias? - quis saber o delegado.
Yuri sacudiu a cabeça, impossibilitando qualquer dúvida.
- Só mostrava preocupação com a loteria. Não que fosse um jogador. O que queria era viajar. Sabe que um dia fez uma ligação telefônica para Roma? E só pelo prazer de falar com uma terra distante. Parece até loucura, não?
O delegado precisava de informações mais quentes e práticas.
- Por acaso tinha inimigos?
- Se tinha, nunca se referiu a eles - respondeu Yuri com ar saudoso - Quem odiaria um sanfoneiro?
- Talvez outro sanfoneiro - respondeu doutor Arruda com um sorriso.
- Boa-Vida não fazia muita concorrência aos outros.
O delegado fez outra pergunta direta:
- A que horas saiu ontem de sua casa?
- Às quatro, logo após o almoço. Mais cedo que habitualmente. Estava com um pouco de pressa.
- Por quê?
- Tinha marcado um encontro.
- Isso interessa. Com quem?
- Não disse - respondeu Yuri em tom lamentoso.
- Provavelmente com  o próprio assassino - arrematou o delegado - Chegamos ao hotel. Dê um abraço no seu primo Francisco. E obrigado pelas informações. Nós vamos pegar quem fez isso.
Yuri entrou no hotel, dirigindo-se à portaria. Quando foi guardar o folheto turistico de Boa-Vida, num dos casulos de correspondência, notou pelo tato que havia algo mais rígido e solto entre as páginas coloridas. O que era aquilo? [...]