14 de nov de 2012

Um cadáver ouve rádio - Parte 2

Yuri chega ao local do crime
Yuri Santos, vestindo o uniforme de mensageiro de hotel, foi um dos primeiros moradores do bairro, Bela Vista, a comparecer ao local do crime.
O pedido, por telefone, feito pelo próprio delegado, surpreendeu-o.
- Podia deixar o hotel por uma hora e vir ao Bexiga reconhecer o corpo de um homem assassinado?
- Conheço essa pessoa, doutor?
- Informaram que se trata de amigo de sua familia. Se tivesse telefone em casa, convocaria seu pai. Anote o endereço.
Yuri, atendendo ao telefonema no balcão da portaria do hotel, ficou tenso.
- Quem foi assassinado?
- O Alexandre.
Yuri, aliviado:
- Não conheço nenhum Alexandre.
- O vigia de uma obra paralisada.
- Não conhecemos vigia de obra alguma, doutor.
- Mesmo assim venha.
Yuri pediu licença a Genival, o gerente do hotel, saiu, e perguntou ao Gino, o porteiro:
- Conhece no Bexiga um vigia de obra chamado Alexandre?
- Não - respondeu Gino, antigo morador do bairro e dono de boa memória.
- Seja quem for, mataram o coitado.
Ao chegar no endereço, ditado pelo doutor Arruda, Yuri viu um edifício de cinco andares em construção. Costumava passar por ele quando ia com sua mãe à igreja. O delegado realmente se enganara: jamais vira algum vigia naquela obra.
Havia uma viatura da polícia parada diante do prédio, já observado por alguns curiosos. Yuri pagou o táxi e dirigiu-se a um policial.
- Doutor Arruda?
- No primeiro andar com o pessoal da Técnica. Vá entrando!
Yuri subiu um lance de escadas, ouvindo vozes. Na sala de um apartamento em construção, entre alguns policiais, o delegado conversava com um rapaz baixo e magro, muito pálido e assustado. O investigador, Bruno, olhava-o, atento, como se temesse sua fuga. Aproximou-se.
- Obrigado por ter vindo, Yuri - disse o delegado. - Conhece esse moço?
- Acho que não - respondeu após breve exame.
- Chama-se Muriçoca e mora em casa de cômodos da vizinhança. Foi quem descobriu o corpo. Diz que veio procurar emprego. Nunca o viu mesmo?
- Não.
- Leve-o de volta à delegacia - ordenou o delegado a Bruno. - Mande levantar a ficha e examine os documentos.
Bruno desceu as escadas com os cinco dedos apertando o braço trêmulo de Muriçoca. Um fotográfo, que subia, tirou uma foto dos dois.
- Como disse por telefone não conheço nenhum vigia de obra - declarou Yuri ao delegado.
Doutor Arruda levou o rapaz ao quarto vizinho onde o pessoal da Polícia Técnica fazia o trabalho de rotina. O cobertor fora retirado da janela. Yuri logo viu o corpo, o rosto colado ao chão e coberto pelo braço direito, estentido. Mas bastava aquela inseparável camisa verde, puída e desbotada, para reconhecê-lo. O delegado estava certo: era de fato um antigo conhecido dos Santos.
- Nunca soube que se chamava Alexandre.
- Alexandre de souza. Tinha uma cédula de identidade no bolso.
- Para nós e para todos era apenas o Boa-Vida.
- Quando o viu pela última vez?
- Almoçou ontem em casa. Ia lá, às vezes, aos domingos. Era nordestino mas gostava muito do macarrão da mamãe.
Yuri deu alguns passos para o interior do quarto. Lá estava a espiriteira que dona Iolanda dera a Boa-Vida em troca de uma subida ao telhado para ajustar a antena de televisão. O colchão, presente de tia Nina. Viu duas xícaras com restos de café. Pontas de cigarros espalhados pelo chão. Ah, aquilo era importante para Boa-Vida - folhetos de roteiros turísticos! Sua leitura preferida. Costumava dizer que, se fizesse os 13 pontos da loteria, partiria em uma viagem ao redor do mundo. Abaixou-se e apanhou um dos folhetos para guardar como lembrança daquele que tanto divertira os Santos com sua música, suas manhas e seu papo engraçado.
- Mataram para roubar? - perguntou ao delegado.
- Não houve roubo - respondeu doutor Arruda - o rádio está ali e encontramos dinheiro em seu bolso. Um ladrão levaria tudo. Até a espiriteira.
Yuri continuava olhando para os míseros pertences. Faltava alguma coisa. Algo muito ligado à vida e personalidade do assassinado. Tão importante como sua própria sombra. Lembrou-se afinal.
- E a sanfona, doutor?
- Não havia nenhuma sanfona!
- Mas Boa-Vida tinha uma! Pergunte a todos que o conheciam.
- Aqui ninguém pegou nada - disse o delegado. - Tudo está como foi encontrado. Se havia uma sanfona, desapareceu.
Yuri começou a interessar-se pelo caso ao tirar a primeira conclusão:
- O senhor disse que o motivo não foi roubo. Mas foi. Procurem quem roubou a sanfona e encontrarão o assassino. [...]