12 de nov de 2012

Um Cadáver ouve rádio - Parte 1

  Foi mais ou menos assim que o pequeno Muriçoca, pálido, trêmulo, gaguejando, contou ao delegado distrital, doutor Arruda, depois de tomar um copo de água numa única e febril virada:
- Parei na entrada da construção por causa da chuva. Fiquei lá um tempo e então subi as escadas.
- Por que subiu?
- À procura de emprego, doutor. Estou sempre tentando.
- Você mora numa casa de cômodos perto da obra. Não sabia que está paralisada há muito tempo?
A pergunta agiu como uma prensa: hesitante, Muriçoca pareceu ainda menor e mais desamparado na delegacia. Olhou para o copo vazio sobre a mesa, suplicando mais água. Aquilo era medo.
- Sabia ou não sabia? - exigiu saber Bruno, o investigador que acompanhava o depoimento.
- Sabia - confirmou o rapaz, juntando os punhos, culposamente à espera das algemas.
- Para que então pretendia pedir emprego numa obra abandonada? - perguntou o delegado.
- Ouvi o rádio lá em cima.
Fácil lembrar. A cena ficará impressa na memória de Muriçoca como uma fita de televisão que se pode rever muitas vezes, mas não conseguia transformá-la em palavras.
Quem sabe o vigia do prédio não lhe desse uma colher de chá. Como dissera ao delegado, estava sempre tentando. Aspirando forte cheiro de cal, foi descendo os degraus, não revestidos, de uma escada. Chegou ao primeiro andar, não viu ninguém. Orientado pela música, dirigiu-se a um apartamento, ainda sem porta. Viu-se numa sala onde se acumulavam sacos de cimento e outros materiais de construção. Parou e bateu palmas. Nenhuma resposta.
- Quero falar com o vigia - disse em voz alta.
Se ele saiu para tomar café, por que o rádio está ligado?, perguntou-se o rapaz. Atravessou a sala e entrou num cômodo escurecido por um cobertor fixado à janela para bloquear a entrada de luz. O rádio, de pilha, estava sobre alguns folhetos coloridos e...
- Um homem, caído de costas, com uma camisa toda ensanguentada. E havia também grandes manchas de sangue pelo chão. 
O delegado observava-o com a experiência profissional de quem não acredita em tudo que houve. Muitos criminosos são os primeiros a "achar" suas vítimas.
- Quando foi isso?
- Hoje cedo, às oito horas, mais ou menos.
- Por que demorou tanto para vir?
Muriçoca contraiu-se todo como se fosse aquela a pergunta mais temida. O investigador olhou maliciosamente para o delegado, prevendo, com a pergunta, a possibilidade de uma confissão. Às vezes o sentimento de culpa já nasce com o endereço da delegacia.
- Andei por aí, parando nas esquinas, tomando café nos botecos, me molhando na chuva.
- Você não respondeu, moço. - disse doutor Arruda, enérgico.
Muriçoca baixou a cabeça, o queixo no peito, os punhos de novo prontos para as algemas.
- Medo de me complicar, doutor. O pobre sempre é suspeito de alguma coisa, ainda mais quando tem um cadáver por perto. [...]