24 de set de 2012

Ultimas lembranças ...

  Cansado, ele se senta ao sol, na calçada mesmo, então começa a pensar em sua vida. Em todas as decisões que tomou quando moço, nos amores vividos, as alegrias, as tristezas, a infância ... ah a infância ...
quem dera ele poder voltar a essa época, voltar a ser uma criança, mudar certas coisas ...
Não. Não, mudar as coisas não, pois ele sabe, que se mudasse uma única coisa, perderia coisas que viveu e que não poderia viver sem, mesmo com todas as dificuldades que a vida lhe trouxe, lhe traz. Tudo o que viveu valeu a pena, as felicidades, os sofrimentos. Coisas que o moldaram no homem que hoje é, de vida cansada e sofrida, mas feliz, pois foi bem vivida. Vida que o tornou homem íntegro, por meio de diversos testes ao longo dos anos. Não que ele não tenha feito suas burradas, mas aprendeu com elas, aprendeu a não se lamuriar pelo o que poderia ter sido, pelo o que poderia ter ocorrido.

Então ele vê uma bela moça passar pela calçada defronte a sua do outro lado da rua, ele tem a impressão de já a ter visto antes, mas só impressão, depois se dá conta que ela lhe lembra alguém que há muito se foi, que muita falta lhe faz, aquela que o amou acima de tudo, aquela que o acompanhou nessa vida, mas teve de ir mais cedo. Depois ele vê um grupo de rapazes passando, se lembra de seus amigos, quase todos já subiram, os que ainda não, junto a ele, lutando juntos. Está um calor desgramado, mas ele já não tem mais forças pra levantar, resolve se encostar melhor no poste e relaxar enquanto tem tempo. Volta a lembrar de sua vida, das aventuras passadas, junto aos seus amigos, ao seu amor, o calor lhe faz ver tudo meio que borrado, mas ele não liga mais, ele começa a ouvir a voz dela o chamando, mas finge não escutar de imediato, está se lembrando de quando jogava bola com os amigos na rua, usando as chinelas como traves dos gols, lembrando de quando a conheceu, de quando casaram e dos apertos e alivios que passara juntos, lembra de quando perdeu aqueles que mais lhe eram queridos, mas lembra principalmente dos bons momentos juntos. Lembra de quando ajudou um amigo a conquistar uma garota, ele duvida de que pudesse existir alguém mais sem jeito pra isso do que o Joca.

Agora ela o chama mais alto, e tem seu chamado reforçados por outras vozes que ele bem conhece, mas não ouve a muito tempo, é, ele não pode mais se demorar, as últimas lágrimas caem, ele vê seu último raio de luz, e com um sorriso no rosto, sussura:
- Perdão pela demora, mas sabem como é, gosto de relembrar o que vivemos.
E após essas palavras, sem tirar o sorriso do rosto, ele solta seu último suspiro nessa vida, e atende ao chamado para ir-se embora.